A MORENA

Fui-me á porta da Morena[31],

Da Morena mal casada:

—‘Abre-me a porta, Morena,

Abre-m’a por tua alma!’

—‘Como te heide abrir a porta,

Meu frei João da minha alma,

Se tenho a menina ao peito

E meu marido á ilharga?’

Estando n’estas razões,

O marido que acordava:

—‘Que é isso, mulher minha[32],

A quem dás as tuas fallas?’

—‘Digo á môça do forno,

Que veio ver se amassava,

Se amassasse pão de leite,

Que lhe deitasse pouca agua.’

—‘Ergue-te, ó mulher minha,

Vai cuidar da tua casa;

Manda teus moços á lenha,

Teus escravos buscar agua.’

—‘Ergue-te d’ahi, marido,

Vai ao monte pela caça;

Não ha coelho mais certo

Do que é o da madrugada.’

O marido que sahia,

Morena que infeitava;

Seu manteo de cochonilha[33]

De dôze testões a vara,

Meia de seda incarnada

Que na perna lhe estalava,

Sua bengalla, na mão

Que mal no chão lhe tocava.

Foi-se direita ao convento,

Á portaria chegava.

O porteiro é frei João[34]

Que pela mão a tomava;

Levou-a á sua cella,

Muito bem a confessava...

Penitencia que lhe deu,

Logo alli mesmo a resava.

Á sahida do convento

O marido que a incontrava:

—‘D’onde vens, ó mulher minha,

Donde vens tam arraiada?’

—‘Venho de ouvir missa nova,

Missa nova bem cantada:

Disse-a o padre frei João,

Que assim venho consolada.’

—‘Consolar-te heide eu agora

Com a ponta d’esta espada...’[35]

Deu-lhe um golpe pelos peitos,

Deixou-a morta deitada.

—‘Não se me dá de morrer,

Que o morrer não custa nada;

Da-se-me da minha filha,

Que a não deixo desmamada!’

—‘Fôras tu melhor mãe que es,

Não fôras tam mal casada,

Não havias de morrer

D’esta morte desastrada.’

Levavam-n’a ao convento,

N’uma tumba amortalhada:

Surria-se o frei João,

E o marido... é quem chorava.


XXIV
DONZELLA QUE VAI Á GUERRA

Apezar de que se não incontra nas collecções impressas, sabemos, pelos nossos escriptores portuguezes, que este romance é de inquestionavel origem castelhana. Por fins do seculo XVI ainda se cantava na sociedade, por gentis damas e galantes cavalheiros; e, ja se vê, em castelhano se cantava. D’esse tempo escrevia Jorge Ferreira na AULEGRAPHIA[36]; ‘Não ha entre nós quem perdoe a hũa troua portugueza, que muytas vezes he de vantagem das castelhanas que se tem aforado comnosco e tomado posse do nosso ouvido.’ Bem ás vessas do que succedia dois seculos antes, em tempos do marquez de Santillana, que os castelhanos trovavam em portuguez para serem acceitos seus dizeres e cantares na propria côrte dos reis de Castella[37].

Devia dar-se, ao menos entre nós, a este romance o seu titulo primitivo ‘O rapaz do Conde Daros’, porque assim lhe chama Jorge Ferreira em outra das muito curiosas scenas da ja citada AULEGRAPHIA, tam riccas todas de preciosa e rara informação para o estudo dos costumes e usos d’aquelle tempo. É na primeira do acto III, chistosa e desinfadada conversação entre dois galantes do paço, Dinardo Pereira e Grasidel de Abreu, que se divertem fazendo de l’esprit á moda do tempo com agudezas e requintes, em quanto não vem o jantar ‘que está para dois toques’. Tracta-se entre aquelles fashionaveis da era de quinhentos, de fazer alguma coisa elegante: sonetos, por exemplo, trovas, ou quejandas galanices d’então—como hoje sería jogar um ruber (róber?), experimentar uma walsa nova no piano etc. Não é o menos gracioso d’este quadro, o áparte dos dois criados Rocha e Cardoso, que á soccapa estão glosando e mettendo a ridiculo os alambicados conceitos dos amos. Dinardo, que é o mais prendado, resolve-se emfim pelo romance e a guitarra.

DINARDO

Ora poys que assi te tocarey: O rapaz do Conde Daros.

ROCHA

De prazer vem vosso amo, algum passarinho novo vio lá.

CARDOZO

Vería muyto má ventura, que sempre anda apos estes...

DINARDO, canta

Pregonadas son las guerras

De Francia contra Aragone...

ROCHA

O que elle tem para seu remedio he gentil voz!...

DINARDO, continuando a cantar

Como las haria triste

Viejo cano y pecador?...

(Quebra-se-lhe uma corda) Ah pezar de Mafoma!

CARDOZO

Quebrou-lhe a prima, inda bem!

DINARDO

Vedes este desar tem a musica, quando estais no melhor, leixa-vos em branco uma prima falsa...[38]

Dei mais largas á curiosa citação por ser, como é, tam indubitavel e interessante documento para a historia do romance em Portugal, e porque tambem são ja rarissimos os exemplares d’essa obra de Jorge Ferreira.

Assim andava pois este romance, extrangeiro, e por tal prezado na alta sociedade portugueza; até que, descendo dos salões para o terreiro, a popularidade o naturalizou. Era castelhano no paço, foi-se fazer portuguez na aldea.

Vai em tres seculos que Jorge Ferreira nos deu as últimas novas d’elle quando andava por casas de senhores; achamo-lo hoje á lareira d’algum pobre abegão do Alemtejo,—que para riccos lavradores, com filhas que ja contradançam talvez, senão é que walsam e polkam tambem—é o triste de muito má companhia ja. Tambem das provincias do Norte vieram noticias e cópias d’elle; dos Açores é a mais completa ou a mais extensa que me chegou. Desvairados nomes traz das diversas provincias: aqui é ‘Dona Leonor’ além ‘Dom João’ n’outra parte ‘Dom Carlos’ etc.

Quando ha dez annos o erudito auctor de ISABEL OU A HEROINA DE ARAGÃO[39], o publicou sob o mesmo titulo e como illustração e fundamento do seu poema, era este o quarto romance tradicional que apparecia impresso em portuguez; contando o primeiro no suspeitoso ‘Figueiredo’ de Fr. Bernardo de Brito, o segundo e terceiro na ‘Silvana’ e no ‘Bernal-Francez’ que eu publicára em 1828 em Londres.

Deixo-lhe por titulo, o que trouxe das ilhas, da ‘Donzella que vai á guerra’, porque lhe acho certa graça e simplicidade toda popular, bem propria sempre de taes rhapsodias.

São muitas as variantes, por ser este romance dos mais espalhados pelo reino, e mais favoritos do povo.