A NOIVA ARRAIANA

—‘Deus vos salve, minha tia,

Na vossa roca a fiar!’

—‘Venha embora o cavalleiro

Tam cortez no seu fallar!’

—‘Má hora se elle foi, tia,

—‘Má hora torna a voltar!

Que ja ninguem o conhece

De mudado que hade estar.

Por lá o mattassem moiros,

Se assim tinha de tornar!’

—‘Ai sobrinho de minha alma,

Que es tu pelo teu fallar!

Não ves estes olhos, filho,

Que cegaram de chorar?’

—‘E meu pae e minha mãe,

Tia, que os quero abraçar?’

—‘Teu pae é morto, sobrinho,

Tua mãe foi a interrar.’

—‘Qu’é da minha armada, tia,

Que eu aqui mandei estar?’

—‘A tua armada, sobrinho,

Mandou-a o fronteiro ao mar.’

—‘Qu’é do meu cavallo, tia,

Que eu aqui deixei ficar?’

—‘O teu cavallo, sobrinho,

Elrei o mandou tomar.’

—‘Qu’é de minha dama, tia,

Que aqui ficou a chorar?’

—‘Tua dama faz hoje a voda,

Ámanhan se vai casar.’

—‘Dizei-me onde é, minha tia,

Que me quero lá chegar.’

—‘Sobrinho, não digo, não,

Que te podem lá mattar.’

—‘Não me mattam, minha tia;

Cortezia eu sei usar:

E onde faltar cortezia,

Ésta espada hade chegar.’

—‘Salve Deus, ó lá da voda,

Em bem seja o seu folgar!’

—‘Venha embora o cavalleiro,

E que se chegue ao jantar!’

—‘Eu não pretendo da voda

Nem tam pouco do jantar;

Pretendo fallar á noiva,

Que é minha prima carnal.’

Vindo ella lá de dentro

Toda lavada em chorar,

Mal que viu o cavalleiro,

Quiz morrer, quiz desmaiar.

—‘Se tu choras por me veres,

Ja me quero retirar;

Se é os teus gastos que choras,

Aqui estou para os pagar.’

—‘Pagar devia co’a vida

Quem me queria inganar,

Quando te deram por morto

N’essas terras d’além-mar.

Mas que fiquem com a voda

E bem lhes preste o jantar,

Que os meus primeiros amores

Ninguem m’os hade quitar.’

—‘Venha juiz de Castella,

Alcaide de Portugal;

Que, se aqui não ha justiça,

Co’ésta espada a heide tomar.’


XXIX
GUIMAR

Dona Guimar—ou Dona Agueda—de Mexia, como lhe chama a licção do Alemtejo, é um interessante romancinho que apparece na tradição d’aquella provincia e na de Extremadura. Por ambas se apurou o texto que aqui dou.

Nem por outras provincias nossas, nem pelas collecções castelhanas ha outro vestigio d’elle, que eu saiba.

Não é muito antigo o stylo. Mas o facto celebrado é o de uma morte apparente com a qual parece se julgou dissolvido o matrimonio: e d’isto houve exemplos em tempos remotos em que tinham por certa a morte, e por verdadeira resurreição o tornar a si o supposto defuncto.

Seja porêm qual for a data d’esta composição, ha coplas d’ella que vão de par com o mais bello e original da poesia mais primitiva. Notarei especialmente a volta de Dom João á sua terra n’aquella manhan de maio, que os passarinhos cantavam, os sinos tangiam e o rir da natureza se misturava com o chorar dos homens. Tambem não creio que haja nada mais bello que estoutros versos quanto a morta vai tornando a si e pondo olhos no amante:

Volta a vida que se fôra

Com todo o amor que não se ia.