A ROMEIRA

Por aquelles montes verdes

Uma romeira descia;

Tam honesta e formosinha

Não vai outra á romaria.

Sua saia leva baixa

Que nas hervas lhe prendia;

Seu chapelinho cahido

Que lindos olhos cubria!

Cavalleiro vai traz d’ella,

De má tenção que a seguia[1]!

Não a alcança, por mais que ande,

Alcançá-la não podia

Senão juncto a essa oliveira[2]

Que está no adro da ermida.

Á sombra da árvore benta

A romeira se accolhia:

—‘Eu te rogo, cavalleiro,

Por Deus e a Virgem Maria,

Que me deixes ir honrada

Para a sancta romaria.’

Cavalleiro, de malvado,

Nem Deus nem razão ouvia;

Cego no desejo bruto,

De amores a accommettia.

Pegaram de braço a braço:

Lucta de grande porfia![3]

A romeira, por mais fraca,

Emfim rendida cahia...[4]

No cahir, lhe viu á cinta

Um punhal que elle trazia;

Com toda a fôrça lh’o arranca,

No coração lh’o mettia.

O sangue negro saltava,

O negro sangue corria...

—‘Por Deus te peço, romeira[5],

Por Deus e a Virgem Maria,

Que o não digas em tua terra,

Nem te vás gabar á minha

Da vingança que tomaste,

Da affronta que te eu fazia.’

—‘Heide dizê-lo em tu’terra,

Heide me ir gabar á minha,

Que mattei um vil covarde

Co’as armas que elle trazia.’

Tocou a campa da ermida,

A campa que retinia:

—‘Ermitão, por Deus vos peço[6],

Bom ermitão d’esta ermida,

Tenhais dó d’essa má alma

Que inda agora se partia:

Dae terra benta ao seu corpo,

Que Deus lhe perdoaria.’


XVIII
CONDE NILLO

So se incontrou este bello romancinho do ‘Conde Nillo’ na provincia de Tras-os-montes e nas ilhas dos Açores. Nas collecções castelhanas é ommisso. Não sei porquê, mas sinto que tem o ar francez ou proençal. Ou talvez normando? Da nossa Hespanha é que elle me não parece oriundo. Tudo isto porêm é sentir; julgar não, que não tenho por onde.

Nillo não é nome portuguez, nem sei que fôsse castelhano, leonez ou de Aragão. De donde será? Ou é corrupção, como tantas, de outro nome? Mas de que nome? Series e series de dúvidas e perguntas ás quaes confesso a minha completa inhabilidade de responder.

Seja como for, o romance é bonito, elegante e gracioso, tem todo o cunho antigo verdadeiro, e não parece dos que mais padeceram na sua transmissão até nós.