LINDA-A-PASTORA
—‘Linda pastorinha, que fazeis aqui?’
—‘Procuro o meu gado que por ahi perdi.’
—‘Tam gentil senhora a guardar o gado!’
—‘Senhor, ja nascemos para esse fado.’
—‘Por éstas montanhas em tam grande p’rigo!’
Diga-me, ó menina, se quer vir commigo.’
—‘Um senhor tam guapo dar tam mau conselho[131].
Querer que se perca o gado alheio!’
—‘Não tenha esse medo que o gado se perca[132]
Por aqui passarmos uma ora de sésta.’
—‘Tal razão como essa não n’a ouvirei[133]:
Ja dirão meus amos que de mais tardei.’
—‘Diga-lhe, menina, que se demorou
Co’esta nuvem de agua que tudo molhou.’
—‘Fallarei verdade, que mentir não sei:
Á volta do gado eu me descuidei.’
—‘Pastorinha, escute, que oiço ballar gado...’
—‘Serão as ovelhas que me tem faltado.’
—‘Eu lh’as vou buscar ja muito depressa,
Mas que me espedace por essa charneca.’
—‘Ai como vai grave de meias de seda!
Olhe não as rompa por essa resteva[134].’
—‘Meias e sapatos[135], tudo romperei[136]
So por lhe dar gôsto, minha alma, meu bem.’
—‘Ei-lo aqui vem; é todo o meu gado.’
—‘Meu destino foi ser vosso criado.’
—‘Senhor, va-se embora, não me dê mais pena,
—‘Que hade vir meu amo trazer-me a merenda.’
—‘Se vier seu amo, venha muito embora;
Diremos, menina, que cheguei agora.’
—‘Senhor, va-se, va-se, não me dê tormento:
Ja não quero vê-lo nem por pensamento.’
—‘Pois adeus, ingrata da Linda-a-Pastora!
Fica-te, eu me vou pela serra fóra[137].’
—‘Venha cá, Senhor, torne atrás correndo...
Que o amor é cego, ja me está rendendo.’
Sentaram-se á sombra... tudo estava ardendo...[138]
Quando ellas não querem, então ’stão querendo.
XXXVII
O MARQUEZ DE MANTUA
Ei-lo que se apea de seu classico barbante em que tantos annos cavalgou, e despindo o papel-pardo em que o imbrulhavam os cegos e vendilhões de nossas feiras, vem o nobre ‘Marquez de Mantua’ tomar o seu logar entre os mais venerandos e antigos romances do cyclo de Carlos-Magno. Sua nobre origem bem sabida é e bem manifesta: franceza ou provençal. Se foi a lingua d’oeil ou a lingua d’oc a primeira que fallou, não sei; quando atravessou os Pyreneus e veio para nós, certo que era ja familiar com ambas. Passou muito tempo em Hespanha por ser composição de Jeronymo Treviño[139]; hoje com razão se crê que o Treviño não foi senão o editor que em 1598 o imprimiu: sem dúvida o romance é muito mais antigo que isso; so da licção portugueza me parece que posso responder que é dos fins do XIV, principios—quando muito—do XV seculo. E todavia a fórma em que elle apparece em portuguez não creio que fosse a primitiva que entre nós teve, e me inclino a que ella seja posterior á que teem os nossos vizinhos castelhanos em suas collecções[140]. Aqui é mais dramatico, lá mais épico: nas multiplicadas edições dos cegos chegou a obter o nome de tragedia. Todavia, não deixarei de observar que revestidos d’esta mesma fórma ha romances muito mais antigos do que os narrativos. As rúbricas de aqui falla o marquez, agora diz o imperador etc., não são indisputavel próva de que a composição fôsse para se representar theatralmente.
Sem profundar nenhuma d’estas questões, contento-me de sacar do lixo da “feira-da-ladra”, ésta bella reliquia da nossa litteratura popular e romanesca, e de restituir ao seu eminente logar o nobre marquez de Mantua, embora me criminem e escarneçam os superciliosos academicos de todas as academias reaes e não reaes d’este mundo.