ACTO TERCEIRO


SCENA I.
OCTAVIA, SENECA.

OCTAVIA.

Vem, ó Seneca, vem, seja-me licito ao menos chorar comtigo; já não me resta outra pessoa com quem possa desafogar meus sentimentos.

SENECA.

Será possivel, senhora? Que uma falsa e infame accusação...

OCTAVIA.

Tudo eu esperava de Néro, mas nunca este derradeiro ultraje, que por si só excede tudo quanto tenho soffrido até agora.

SENECA.

Mas, não passa de loucura accusar-te de crime tão infame; a ti, modelo vivo de amor e de fidelidade, a ti tão boa, tão modesta, tão piedosa, a ti que, não obstante, o laço que te prendia a Néro, te conservaste pura; será possivel que manchem tua reputação? Não, assim, não acontecerá; eu o espero. Ainda estou vivo, eu que fui testemunha de todas as tuas virtudes...... Roma me ouvirá proclamar tua innocencia emquanto me restar um sopro de vida. Qual será o coração empedernido que de ti não terá compaixão? Ah! é inutil que contes teus soffrimentos, nem conta-los saberias... Eu sinto e partilho tuas dôres.

OCTAVIA.

É em vão que esperas, Seneca; Néro não ficará satisfeito emquanto não houver manchado o meu nome. Tudo aqui se curva á sua vontade: tu mesmo, te perderias e de balde. Ah! é por ti que eu tremo. É certo que defendem teu nome conhecidas virtudes. Ah! porque não acontece assim commigo! Mas sou joven, sou mulher e cresci, fui educada no meio de uma côrte corrompida... Oh! céo! E podem julgar-me ré do crime vil que me imputão! Ninguem acredita, ninguem póde acreditar que eu tenha conservado no coração o antigo amor que consagrava a Néro. E entretanto, sabe que o meu coração espesinhado mil vezes e de mil maneiras, não sente maior dôr de que a de vê-lo amar outra mulher.

SENECA.

Néro ainda me conserva a vida; porque o faz, não sei; ignoro porque se afasta de mim sorte igual á de Burrho e de alguns outros poucos virtuosos; mas, posto que demore o momento da vingança, sei que escreveu meu nome no seu livro de morte. Eu com minhas proprias mãos já teria posto fim a meus dias, se não me contivese uma esperança (esperança illusoria!) de chama-lo novamente ao caminho do bem. Espero entretanto que me seja dado, antes de morrer, arrancar de suas mãos um innocente...... Se fosses tu, se eu pudesse ao menos poupar-te a infamia...... oh! morreria feliz.

OCTAVIA.

Ao entrar de novo neste palacio, perdi a esperança de viver mais tempo. Não penses que eu não receie a morte; debil mulher, como poderia eu ter tal coragem? Temo-a, é certo, e no entanto chamo-a de todo o coração, e, entre gemidos, volto os olhos para ti, meu mestre, que tão bem ensinas a morrer!

SENECA.

Ah! cala-te; assim me despedaças o coração... Ai de mim!...

OCTAVIA.

Tu só podes salvar-me, pelo menos da infamia! E vê quem me accusa... É ella, Poppéa, quem me exprobra semelhantes amores!

SENECA.

Ó digna esposa do feroz Néro!

OCTAVIA.

Não é a virtude de certo que mais agrada a Néro; o gesto desenvolto, a audacia são o jugo que a domina; a ternura, a meiguice, parecem-lhe fastidiosas... Oh! quanto não fiz por agradar-lhe! Seus menores desejos erão leis para mim, sua vontade foi-me sempre sagrada. Chorei occultamente a morte de meu irmão, se não felicitei Néro por este crime, tambem não ousei lançar-lh'o em rosto. Chorei longe delle; em sua presença calei-me. Fingi acreditar que não fôra elle quem derramára o sangue dos meus: foi tudo em vão... O meu cruel destino quer que eu lhe desagrade sempre!

SENECA.

Porventura Néro poderia jámais amar-te, a ti que não és impia nem cruel? Mas deixemos isto de parte, tranquillisa o espirito. Já vem rompendo o dia. O povo, apenas souber que estás de volta, quererá ver-te e dar-te provas de sua affeição; espero muito delle. Suas murmurações erão já violentas quando partiste, nem cessárão durante a tua curta ausencia. Néro é iniquo, mas é ainda mais cobarde; não ousa realisar todos os seus desejos porque sempre teme o povo. É cruel e orgulhoso, mas não se julga ainda bem seguro no throno; virá um dia em que...

OCTAVIA.

Que tumulto é este? que escuto?

SENECA.

Parece ser o povo de Roma...

OCTAVIA.

Oh! céo, approxima-se deste palacio...

SENECA.

Ouço os gritos do povo em revolta.

OCTAVIA.

Ai de mim! o que terá acontecido!...

SENECA.

Nada receies; nós somos os unicos que estamos seguros neste palacio indigno.

OCTAVIA.

Cresce o tumulto. Ah! infeliz! talvez que Néro esteja em perigo... Mas que vejo?...

SENECA.

É Néro; ei-lo que para aqui se encaminha.

OCTAVIA.

Oh! quanta cólera brilha no seu olhar feroz! Eu tremo!...

SCENA II.
NÉRO, OCTAVIA E SENECA.

NÉRO.

Quem és tu, quem és tu mulher perfida, cuja volta provoca perturbações no povo de Roma e cujo nome elle ousa acclamar?... O que fazias aqui? O que planejavas com este réo, este traidor? Estás ambos em meu poder. Em vão o povo insensato reclama a tua presença. Ah! se tiver de mostrar-te á plebe, espero mostrar-te morta como mereces.

OCTAVIA.

Faze de mim, ó Néro, o que quizeres, mas, crê, sou innocente, não tive parte na revolta popular. Ao povo, juro, nada peço, nada delle espero; mas, já que contra minha vontade vos fiz mal, castiga meu crime involuntario.

NÉRO.

Antes de punir-te, quero que todos saibão quanto és criminosa.

SENECA.

Esperas illudir o povo com mentiras tão torpes?

NÉRO.

Tu tambem, cobarde instigador de revoltas, que aqui te escondes, chefe ignorado do tumulto popular, sentirás um dia o peso da minha cólera e da minha vingança.

SCENA III.
TIGELLINO, OCTAVIA, NÉRO E SENECA.

TIGELLINO.

Senhor...

NÉRO.

Que novas trazes, Tigellino, falla.

TIGELLINO.

A revolta cresce de minuto em minuto; o unico recurso agora é a tua presença. O povo, apenas soube que por ordem inesperada Octavia voltára a Roma, quiz immediatamente vê-la. Julga, ignorante, que mudaste de opinião; ha quem affirme que Octavia partilha de novo o leito imperial. Alguns correm ao Capitolio, e alli manifestão sua alegria e os votos que por ella fazem; outros coroão de louro triumphal as estatuas de Octavia, ha tanto tempo abandonadas; outros, ebrios de prazer, derribão as estatuas de Poppéa; outros, emfim, mais que audazes, arrastão-as pelas ruas, gritando, amaldiçoando-a. Por toda a parte ouvem-se contra Poppéa accusações infames; cobrem-na de ridiculo; entoão louvores a Néro, mas querem que, pelo menos, Poppéa seja expulsa de Roma; os mais temerarios ousão em gritos pedir a sua morte. Ouves daqui os cantos de alegria, depois as ameaças, depois as supplicas. Reina por toda a parte a agitação; ninguem quer mais obedecer. Os soldados e os chefes debalde se esforção por oppôr um dique á multidão furiosa, debalde; o povo rompe as fileiras da tropa, espalha em torno a confusão; já houve mortes; cumpre não perder um momento. O que deverei fazer? O que ordenas, Senhor?

NÉRO.

O que fazer?... Mostre-se Octavia ao povo, mostre-se já... e depois, morra.

OCTAVIA.

Eis o meu peito inerme, fere, se o queres, comtanto que minha morte te aproveite... Mostra-me moribunda ao povo revoltado; acalmar-se-ha logo essa criminosa alegria. Só peço uma graça: sejão as minhas cinzas guardadas na mesma urna que encerra as de Britannico. O nosso tumulo servirá de base inabalavel ao throno de Néro. O que te detém? tira-me a vida, e cesse o teu furor.

SENECA.

Se queres, ó Néro, porder ao mesmo tempo o throno e a vida, o meio é certo: manda assassinar Octavia.

NÉRO.

Hei de vingar-me, quaesquer que sejão as consequencias do meu acto.

OCTAVIA.

Oh! quero antes soffrer mil mortes do que expôr Néro ao menor perigo.

TIGELLINO.

O tempo urge. Não ouves estes gritos furiosos? Nunca vi o povo possuido de tanta cólera; tanto mais devemos temê-lo, quanto mais o arrebata a alegria. Cumpre tomar já uma decisão.

OCTAVIA.

Porque hesitas, Néro? Para applacar o povo, deves escolher entre estes dous extremos: matar-me, ou dar-me o teu amor. Nunca pudeste fingir que me amavas; concede me ao menos a morte que desejo ardentemente. Illude este povo credulo, cujo furor se acalmará em breve; o povo é sempre inconstante. Permitte sómente que eu me apresente a elle com semblante tranquillo, como se houvesse recuperado a tua affeição; saberei dissimular. Deste modo os grupos se dispersarão, cessará o tumulto, reinará de novo a ordem e terás então tempo para desembainhar a espada e degolar a victima.

NÉRO.

Sim, mostrar-te-hei aos Romanos; mas antes quero saber se sou ou não senhor em Roma. Vae, Tigellino, corre ao acampamento, reune em segredo os pretorianos, cahe de sorpreza sobre os audaciosos rebeldes, e, por onde passares, vae espalhando a morte.

TIGELLINO.

Farei como o ordenas; mas o resultado é incerto. Parecerá cruel punir com a morte manifestações de alegria. E, se crescer o furor do povo? Elle é inconstante, bem sabes, da alegria passa facilmente a cólera; é difficil resistir a uma cidade inteira. Se fôrmos vencidos, eu e os meus soldados, quem te defenderá?

NÉRO.

Tens razão... Mas, se eu ceder, poderão pensar que...

TIGELLINO.

Confia em mim, senhor; não transformes um perigo momentaneo em grave mal; a tua presença bastará por si só para acalmar o povo.

NÉRO.

Eu... fico aqui para guardar Octavia. Vae tu, falla-lhe em meu nome, mostra-te em meu lugar; bem sabes o que seja o povo, é perigoso contemporisar com elle. Faze o que fôr conveniente: dissimula promette, concede, illude-o, mata, se fôr preciso; lança mão do ouro, do terrôr, do ferro, das palavras enganadoras, comtanto que triumphes. Vae, vôa, e volta.

SCENA IV.
NÉRO, OCTAVIA E SENECA.

NÉRO.

Desgraçado de ti, Seneca, se tentares sahir deste palacio!... Mas afasta-te de mim... Não quero vêr-te. Podes fazer votos por tua felicidade; espera, deseja, mas o teu dia se approxima.

SENECA.

Eu o espero.

SCENA V.
NÉRO E OCTAVIA.

NÉRO.

Quanto a ti, fica certa de que é este o ultimo triumpho que alcanças; gosa-o, pois em breve...

OCTAVIA.

Dia virá, mas já tarde, em que conhecerás melhor Octavia.

SCENA VI.
POPPÉA, NÉRO E OCTAVIA.

POPPÉA.

Dize-me, Néro, collocaste-me no throno a teu lado para que de mim zombasse a plebe insolente?... Mas que vejo?... em quanto me acabrunhão de ultrages, silencioso ahi ficas sem me vingares junto dessa que é a causa de todas as desgraças! Será, pois, verdade que Néro é o senhor do mundo, quando o povo lhe impõe uma esposa?

OCTAVIA.

Tu unica possues o coração de Néro: que temes pois? Eu, vil prisioneira, sou apenas obstaculo á audacia do povo. Alegra-te, pois, põe de parte os cuidados; tuas lagrimas preciosas seccaráõ em breve, quando vires correr em ondas o meu sangue.

NÉRO.

Dentro em pouco Roma inteira saberá da tua infamia, e conhecerá quão indigno era o idolo por ella escolhido. Os ultrajes, que te atirárão ás mãos cheias, Poppéa, transformar-se-hão em louvores; ás homenagens, que a ella prestárão, substituirá o opprobrio.

OCTAVIA.

Se alguem tentasse convencer-me do crime infame de que me accusão com provas vãs, a ti só, Poppéa, quizera eu por meu juiz. Tu sabes o que seja mudar a cada instante de amor, e sabes tambem qual a recompensa que merece quem de tal crime se torna ré. Mas a vossos olhos bem sei que sou innocente. Porque tu, que tens tanto orgulho da tua virtude, não ousas encarar-me?

NÉRO.

Que te atreves dizer? Respeita a esposa de teu senhor, treme...

POPPÉA.

Deixa que ella falle; bem faz em escolher-me para juiz; onde acharia outro mais indulgente? E que melhor castigo poderia eu inflingir áquella que trahio o amor de Néro, do que a perda desse amor? Haverá por ventura pena mais suave? Logo que eu houver provado a existencia da paixão infame, que debalde buscas esconder, tornarei publico teu crime; amante indigna de Eucéro, quero que sejas sua esposa.

OCTAVIA.

O escravo Eucéro é aqui o véo que cobre uma iniquidade mais vil do que elle proprio. Mas recuso discutir comtigo, não nasci para descer tão baixo, não sou, como tu, audaz...

NÉRO.

Com quem ousas comparar-te? A chamma adultera, em que ardes, põe-te abaixo da mais vil escrava; cahiste da alta posição onde te collocára o nascimento.

OCTAVIA.

Não me odiáras tanto, se com effeito eu tivesse decahido, ou se ao menos pudesses crê-lo. Entregar-te-hei, se o quizeres, tudo quanto me pertence, mas não a minha innocencia. Cruel Néro, embora sejas criminoso, não posso deixar de amar-te, nem de envergonhar-me deste amor. É opprobrio para mim, bem o sei, chamarem-me rival de Poppéa; mas, não o sou, esta mulher nunca te amou, não te ama, e só ambiciona a tua posição, o teu throno, o esplendor que o cerca.

NÉRO.

Perfida! Já...

OCTAVIA.

Quanto a ti, quando comecei a amar-te, não eras o que hoje és; tinhas nascido talvez para o bem. Jámais na tua infancia déste prova de indole perversa. Eis aqui a mulher que envenenou-te a alma e o coração; ella foi quem perverteu a tua intelligencia; ella, sim ella, quem te ensinou o sabor do sangue; eis aqui o genio máo de Roma. De mim não fallo, que nada valem meus males, comparados com os da patria; mas tu tingiste de sangue as aguas do Tibre; meu irmão, tua mãi...

NÉRO.

Cala-te! cala-te! ou eu...

POPPÉA.

Merece ella porventura a tua cólera, senhor? O ultraje é sempre meio de defesa de que lança mão o réo. Se ella me houvesse offendido, se lhe pudesses dar credito, então suas palavras terião peso para mim. Que disse ella? Que não te amo? Bem sabes...

OCTAVIA.

Melhor que elle o sabes tu; Néro só o saberá no dia em que perder o imperio; então te conhecerá qual és. Ah! porque no throno (causa unica do odio que me vota Néro) porque no throno tive eu o berço! por que não descendo de familia obscura? Seria então menos suspeita e menos odiosa.

NÉRO.

Manos odiosa? Sempre o foste, e de dia em dia mais te tornas; agora, porém, sê-lo-has por pouco tempo.

POPPÉA.

Se não posso dizer-me descendente de familia real, nasci porventura de sangue vil? E, quando o fosse, não me bastára não ser filha de Messalina?

OCTAVIA.

Reinavão meus pais, a isto deve-se o serem de todos conhecidos pequenos erros que commettêrão. Mas, quem soube jámais o que fizerão vossos avós obscuros e ignorados? Ainda, porém, que me ousem comparar a ti, haverá quem possa accusar Octavia de ter sido de muitos esposa?... Fui porventura rejeitada por um Rufo, por um Othon?

NÉRO.

Em breve pertencerás á morte! Só me resta fixar a especie de supplicio que te reservo, não faças que eu escolha dentre elles o mais horrivel. Retira-te, encerra-te em teus aposentos. Vai, não quero ouvir por mais tempo a tua voz.

SCENA VII.
NÉRO E POPPÉA.

NÉRO.

Poppéa, conhece melhor a Néro e a ti mesma. Inda que seja preciso incendiar Roma e afoga-la em sangue; inda que tenha de nella sepultar-me com meu throno, não mais, t'o juro, serás ultrajada por causa de Octavia, nem haverá força que a arranque do meu poder. Tranquillisa-te e confia em mim.

POPPÉA.

Eu só receio morrer sem ser tua esposa.

NÉRO.

Oh! cala-te, o criminoso levantamento do povo se aplacará tão rapidamente quão rapido se manifestou. Eu, do meu lado, vou preparar-me. Fica tranquilla, dentro em pouco me verás voltar, vingado o ultrage que ousárão fazer-te.