Bem hajas! quem te procura
Jámais te procura em vão:
Tu desces, e a noite escura
Se volve em doce clarão;
Tu desces, e a luz da esp'rança,
Como estrella de bonança,
Brilha no mar da afflicção.
A vida é triste: no mundo
Soffremos até morrer;
Mas, Senhor, quem sonda a fundo
Mysterios do teu poder?
A vida é triste, mas breve;
E o futuro que se eleve,
Eterno, immenso ha de ser.
Mundos e mundos no espaço
Vão rolando á tua voz,
Prêsos em mystico laço
N'esses jardins sobre nós;
E tudo canta á porfia
Aquella grande harmonia
Que ensinam teus anjos sós.
Tudo folga: só na terra
Ha de o homem padecer?
Acaso tão pouco encerra
Seu fado? não póde ser.
Se o homem foi obra tua,
N'este mar em que fluctua
Ha de um porto emfim haver.
Bem hajas! a dôr e o pranto
Vem de ti, do teu amor;
São crysol augusto e sancto
Que nos apura em fulgor;
São a chamma, o fogo intenso
Que nos ergue como incenso,
E a teus pés nos vae depôr.
Tu sabes porque sombria
Vaga a noite na amplidão,
Porque a terra se anuvia,
E ruge irado o tufão:
É que o dia segue a noite,
E das procellas no açoite
Se esconde a florea estação.
Bem hajas, Senhor, bem hajas!
O teu poder nos conduz;
Se de luto um dia trajas,
Outro dia além reluz.
N'este gyro sempiterno,
Vem o estio apóz o inverno,
E apóz as sombras a luz.
Bem hajas! feliz no mundo
Quem tua face entrevê,
E d'este abysmo profundo
Se ergue nas azas da fé!
Feliz quem sorrindo ás vagas,
De olhos fitos sobre as plagas,
Espera, confia, e crê!
O BUSSACO
Oh! salve irmão do Libano,
Que altivo ergues a fronte,
Monarcha d'estas serras,
Senhor da solidão!
Salve, gigante cupula,
Que ostentas no horisonte,
Erguida sobre as terras,
A cruz da redempção!
Em teus agrestes pincaros
O homem vive e sente
Mais longe d'este mundo,
Mais proximo dos céos:
Por isso, nos seus extasis,
O monge penitente
Aqui meditabundo
Se erguia aos pés de Deus.
Por largo tempo o cantico
Do pobre cenobita
Soou na ermida rude
Da tua solidão:
Hoje o silencio lugubre
Sómente n'ella habita,
Silencio d'ataúde
Em funebre mansão.
Porém se os coros mysticos
Findaram sua reza,
Se a voz do sancto hosanna
Em ti já feneceu;
Tu vives, e inda incolume
Ao Deus da natureza,
Calada a voz humana,
Descantas o hymno teu.
Oh! como és bello erguendo-te
Á luz do novo dia,
Que os mantos de verdura
Te banha de fulgor!
Quando o gemer dos zephyros,
Das aves a harmonia,
Acordam na espessura
Louvando o Creador!
Mas quanto mais esplendido
Serás quando a tormenta,
Sublime, rugidora,
Eu teu regaço cahe!
Quando de mil relampagos
Teu cume se apresenta
C'roado, como outr'ora
O fulgido Sinai!
Quando os tufões indomitos,
Rugindo nas escarpas,
Se abraçam ás torrentes
Com horrido fragor!
Depois, em negro vortice,
Desferem nas mil harpas
De teus cedros ingentes
Um cantico ao Senhor!
Tu és grandioso; o animo
Que a sós aqui medita
Recolhe altas imagens
De sancta inspiração.
Oh! porque veio turbida
A guerra atroz, maldita,
Soltar n'estas paragens
As vozes do canhão?
D'um lado eram as bellicas
Hostes de Bonaparte;
Do outro heroico e ufano
O povo portuguez:
A liberdade e a patria
Ergueu seu estandarte,
E a historia do tyranno
Contou mais um revez.
Tudo passou: sumiram-se
Vencidos, vencedores;
Té mesmo do gigante
Soou a hora fatal:
Só tu, sorrindo impavido
Do tempo e seus furores,
Inda ergues arrogante
Teu vulto colossal.
E cada vez que fulgido
Renasce o novo dia,
De nova luz te banhas,
Despindo os negros véos;
E dizes, em teu jubilo,
Ao sol que te alumia:
--O rei d'estas montanhas
Saúda o rei dos céos.
Depois, ao vêl-o pallido
Nas vagas do horisonte,
Pareces ao mar vasto
Dizer com altivez:
--Em teu regaço, ó pelago,
Tu lhe sumiste a fronte:
Avança, que de rasto
Virás beijar-me os pés!