Assim, da patria que baixava á tumba,
Em cantos immortaes salvando a gloria,
E entregando-a dos tempos á memoria,
Como em gigante pedestal segura:
«Patria querida, morreremos juntos!»
Murmurou em accento funerario,
E envolvido da patria no sudario
Baixou á sepultura.
Quebrando a louza do feral jazigo,
Portugal resurgiu, vingando a affronta,
E inda hoje ao mundo sua gloria aponta
Dos cantos de Camões no eterno brado;
Mas do vate immortal as frias cinzas
Esquecidas deixou na sepultura,
E o estrangeiro que passa em vão procura
Seu tumulo ignorado.
Nenhuma pedra ou inscripção ligeira
Recorda o gran cantor... porém calemos!
Silencio! do immortal não profanemos
Com tributos mortaes a alta memoria.
Camões, grande Camões, foste poeta!
Eu sei que tua sombra nos perdôa:
Que valem mausoléus ante a corôa
De tua eterna gloria?
O OUTOMNO
Eis já do livido outomno
Pesa o manto nas florestas;
Cessaram as brandas festas
Da natureza louçã.
Tudo aguarda o frio inverno;
Já não ha cantos suaves
Do montanhez, e das aves,
Saudando a luz da manhã.
Tudo é triste! os verdes montes
Vão perdendo os seus matizes,
As veigas os dons felizes,
Thesoiro dos seus casaes;
Dos crestados arvoredos
A folha sêcca e myrrhada,
Cahe ao sôpro da rajada,
Que annuncia os vendavaes.
Tudo é triste! e o seio triste
Comprime-se a este aspecto;
Não sei que pezar secreto
Nos enluta o coração.
É que nos lembra o passado
Cheio de viço e frescura,
E o presente sem verdura
Como a folhagem do chão.
Lembra-nos cada esperança
Pelo tempo emmurchecida,
Mil aureos sonhos da vida
Desfeitos, murchos tambem;
Lembram-nos crenças fagueiras
Da innocencia d'outra idade,
Mortas á luz da verdade,
Creadas por nossa mãe.
Lembram-nos doces thesoiros
Que tivemos, e não temos;
Os amigos que perdemos,
A alegria que passou;
Lembram-nos dias da infancia,
Lembram-nos ternos amores,
Lembram-nos todas as flôres
Que o tempo á vida arrancou.
E depois assoma o inverno,
Que lembra o gêlo da morte,
Das amarguras da sorte
Ultima gota fatal...
É por isso que estes dias
Da natureza cadente,
Brilham n'alma tristemente
Como um cyrio funeral.
Mas animo! após a quadra
De nuvens e de tristeza,
Despe o luto a natureza,
Revive cheia de luz:
Após o inverno sombrio,
Vem a florea primavera,
Que novos encantos gera,
Nova alegria produz.
Os arvoredos despidos
Se revestem de folhagem;
Ao sôpro da branda aragem
Rebenta no campo a flôr;
Tudo ao vêl-a se engrinalda,
Tudo se cobre de relva,
E as avesinhas na selva
Lhe cantam hymnos d'amor.