Um velho, alquebrado e arrimando-se a um cajado, de andar pezado e de cabeça calva, com o olhar velado por uma tristeza profunda, vem quasi todos os dias passar alguns momentos com elles.{146}
Esse velho é o tio Alamêda, que nos ultimos tres annos envelheceu mais que em todo o resto da vida.
Privado dos affagos dos filhos que a infelicidade arrebatou da sua companhia, minora o seu soffrimento com os carinhos que lhe prestam esses dois seres—Paulo e Julia—que a Providencia lhe atirara pela porta dentro, para encontrarem no seu coração o que tão cêdo lhes faltara.
Seus filhos, ao partirem, tinham-lhe dito, como Cristo, da cruz, á sua Mãe: «ahi lhe ficam os seus filhos. São dignos do seu amôr; por isso, conserve-os na sua companhia».
E o tio Alamêda, amando, aquelles entes como seus filhos, sentiu a necessidade dessa companhia. Resolveu, no seu intimo, casal-os.
Chamou um dia Paulo á parte, tinha elle já desenove annos, e perguntou-lhe:
—Paulo, eu amo-te como a um filho. Amo tambem Julia como se egualmente fosse minha filha. A separação dos meus verdadeiros filhos da minha companhia abriu-me a sepultura, e a vossa separação agora atirar-me-hia para ella. Convém que vós vos não separeis de mim nos ultimos dias da minha vida. Vou perfilhar Julia; a ti talvez não, porque tenho uma ideia que, se concordares com ella, dispensa isso. Queres casar com Julia?
O pobre rapaz, como não querendo acreditar no que ouvia, abriu os olhos, sem poder responder á pergunta que o velho lhe fazia.
—Responde. Parece que ficaste espantado? Queres ou não casar com Julia?
—Se quero!...