Desde esse dia, Julia ficou fazendo parte da familia do tio Alameda.
—Olha o que te digo, pequena—dizia-lhe elle carinhosamente uns dias depois da morte do pae. Tu agora és minha filha. Deus levou uma que eu tinha e mandou-te a ti em seu logar: voltei a ter tres filhos. Mas tu não has-de andar sempre a chorar! Isso são saudades, é certo, e as saudades dos paes nunca se acabam. Mas faze-me a vontade; eu não posso vêr ninguem a chorar.
E o bom velho passava-lhe com carinho a mão pela cabecita loira.
—Sabes? Eu tambem chorei quando era novo, quando não conhecia ainda o mundo. Mas depois{35} que comecei a tomar conhecimento d'este mundo todo de enganos, deixei-me d'isso. Se fosse a chorar todas as vezes que tinha motivo para isso, então não fazia outra vida.
A contradizer as suas palavras, duas lagrimas lhe assomaram aos olhos.
—Olha: vem para a cozinha. Vem para junto da Helena que está a fazer a ceia, e espairecer.
E pegando-lhe docemente na mão, obrigou-a a seguil-o.
—Helena? chamou elle ao transpor a porta da cozinha; é preciso que o Belbuth venha cá hoje. Quando os rapazes voltarem do trabalho, o Paulo que vá vêr se o encontra. Precisamos de nos rir um pouco com as suas chalaças, para distrahir esta pequena, que não faz senão chorar.
Quem não conheceu o Belbuth, em toda a freguezia, ainda não ha muitos annos?
Quem ha ahi que se não recorde d'esse velho, rijo como um pêro, e que contava cerca de cem annos quando morreu?