—E se não me responder,
Pedirei a S. Joaquim
Me dê a Maria Luiza
Tão babadinha por mim.

O ultimo verso foi quasi abafado por palmas e gargalhadas e dictos dos circumstantes. A Maria Luiza baixou a cabeça, e, com effeito, se fosse á luz do dia, vêr-se-lhe-ia o rosto tingir-se de uma côr purpurina.{49}

Na mesma occasião, um bando de rapazes que, ao approximarem-se do local da desfolhada, se occultaram a ouvir o cantador, aguardando o final dos seus improvisos para o acclamarem, sairam do seu esconderijo e appareceram juntando ao alarido as suas exclamações e motejos inoffensivos dirigidos á Maria Luiza que, na opinião d'elles, encavacara.

—Ora deixem-se d'isso! deixem-se d'isso! Dizia o tio Alameda. Quero que se divirtam, cantem e riam, mas nada de fazer «ir á serra» a ninguem.

Os recem-chegados dispozeram-se todos em volta do monte que já estava reduzido a metade.

No meio da confusão d'aquellas vozes em que sohresaiam as estridulas gargalhadas das raparigas, entre tantos corações jovens que, pondo de parte todas as preoccupações, só cuidavam de dar curso ás catadupas do ardor que d'elles dimanava, havia um coração joven, um coração de quinze annos, amavel como o de um anjo e puro e sensivel como uma camelia de cambraia fina.

Julia, desde o principio da desfolhada, parecera estar alheia a todo o enthusiasmo que reinava em volta de si.

Paulo notou essa abstracção e, pondo de parte as attenções ao seu genio folgazão, perguntou a Julia, com voz terna e compassiva.

—Então a menina para que está sempre assim triste? Nem ao menos agora se alegra? Ha já mais de um mez que está nesta casa, e ainda não houve um dia em que estivesse alegre!

Julia respondeu ás palavras compassivas e ternas de Paulo com um olhar agradecido e ao mesmo tempo tão dôce, que elle, sentindo na sua alma umas vibrações extranhas e no coração umas palpitações que jámais sentira, baixou os olhos como uma creança{50} envergonhada. Á luz da lua, que dera em cheio no rosto de Julia, elle vira-lhe nos olhos duas lagrimas, e nos labios brincar um sorriso candido de reconhecimento; e na expressão desse rosto, no conjuncto das lagrimas com o sorriso angelico desse rosto encantador, Paulo esqueceu-se de si, do logar onde estava, do mundo onde entrara pela porta da infelicidade, e julgou ouvir dentro de si uma musica celeste, de harmonias extranhas; pareceu-lhe que, num sonho, vagueava sem saber por onde, talvez pelas nuvens, e que só via deante de si esse rosto...