Estava só, na saleta terrea que lhe servia de triclinio, pois que a cosinha não era, segundo o seu modo de vêr de homem rico, logar apropriado para isso.

A mãe, na companhia d'outra mulher que convidara para a ajudar nos serviços domesticos d'esse dia—dia de gala em casa da tia Quiteria—ultimava as arrumações da sua cosinha onde n'esse dia um frango, uma posta de vitella e outra de carneiro e mais uns guisados, deram ás paredes denegridas a honra de as mimosear com um fumo mais agradavel, impregnado de aromas recendentes que espantaram metade da visinhança.

—Viva, sr.ª Quiteria! disse da porta da cosinha um homem de trinta e cinco annos, com a sua roupa domingueira de saragoça, fazendo uma mesura com{88} o chapéu na mão. Então está contente, hein? Tem cá o seu filho...

—É verdade, Francisco. Como não hei-de estar contente, se ha tantos annos o não via?

—Decerto, decerto! Pois eu queria vê-lo, porque a gente gosta sempre de vêr as pessoas do nosso tempo de rapaz... Elle é capaz de fazer que me não conhece... Deus Nosso Senhor deu-lhe sorte; enriqueceu, emquanto que eu, sempre...

—Não digas isso, homem! O meu Joaquim não é d'esses. Olha: entra para alli, que lá o encontras.

O nosso novo personagem era o visinho mais proximo da sr.ª Quiteria (é necessario agora dar-lhe senhoria, em honra do dinheiro do filho); era um antigo companheiro do brazileiro, inseparaveis no jogo do pião e na procura de ninhos. Vivia só com sua mãe, a tia Maria das Neves, que corrêra logo a dar os parabens á sua visinha e as boas vindas ao filho, a quem achou muito desconhecido mas muito bom, com muito boa côr, que não parecia até vir de terras brazileiras.

Elle abriu a porta que dava para a salita, e, lançando um olhar meio perscrutador, meio timido, para dentro, perguntou da porta:

—Ó senhor Joaquim! Que bons olhos o vejam!

—Ah! és tu, Francisco? perguntou phleugmaticamente, sem se mexer, o brazileiro. Entra, homem. Entra, e senta-te ahi mesmo nessa mala.