propriedade absoluta dos editores
Porto—Companhia Nacional Tipográfica
AO DOUTOR
BRITO CAMACHO
AMOR CRIOULO
I
Das barbas do Afonso Costa
Mandei fazer um pincel
Para escovar as botinas
Do querido D. Manuel.
II
III
IV
Apesar de bastante instado para baixar tambêm, o Silveira resolveu ficar. O tenente Euclides oferecera-se amavelmente a ser-lhe companhia e guia na cidade, mas por aquela noite sómente;—êle bem devia compreender,—a noiva esperava-o com ansiedade, e tinha que seguir no primeiro trem para S. Paulo, logo na manhã seguinte. Por igual os Wymeyer, tímidamente sondados, redarguiram, com mal contido desdêm, «que não desciam... que para quem, como êles, vinha da Europa, não valia a pena». Para mais, a colónia inglesa de bordo, ponderando muito sensatamente o horror de bérrata, confusão e desordem que devia ser, para um recêm-chegado, aquela noite de Entrudo, no Rio, resolvera, em vez de desembarcar, fretar antes um vaporsito onde passasse despreocupada e íntimamente, ela só, algumas horas, bordejando a baía, fazendo o suave e demorado contôrno daquela fantástica decoração, vogando plácidamente ao voluptuoso embalo daquele mar de sonho. Era uma idéa deliciosa. Miss Nora Scott convidára o Silveira para a encantadora excursão. Os Améglio iam tambêm.—Que mais queria êle?... Para ver o Rio tinha o dia seguinte.—Resolveu, pois, ficar; e, depois de jantar, sem fazer maior caso da estrepitosa festa carnavalesca que a criadagem de bordo organizára na ponte da 2.ª classe, tomou ao portaló e desceu ligeiro ao vaporsito, cuja silhueta coqueta se desenhava em baixo, convidativa e luzente, no regaço manso das águas trepidando, fumarando, bailando alegremente. Daí a minutos, punha-se em marcha, e sobre o seu minúsculo convés, escassamente alumiado, foi difícil nos primeiros momentos a identificação das figuras. A infeliz Nora Scott foi a primeira a fazer-se reconhecer pelo Silveira, abordando-o e abandonando-se-lhe com carinhos, incendida como ela vinha nos seus propósitos firmes de seducção, provocante, amorável, tôda tules e rendas. Porêm, ao primeiro pretexto decente, o Silveira afastou-se; e pronto aí estava êle já ao lado da sua apetecida irlandesa, trepados, muito amigos e compadres, os dois à mesma clara-bóia que dava luz às câmaras interiores, à falta de mais cómodo assento. O conde mantinha-se longe e a velatura crepuscular do ambiente era o mais discreto cúmplice, agora, a esta doce e inefável aproximação, sem testemunhas e sem peias.—O ar estava tépido, tranqùilo e na sua morna quietação o crespo afago da brisa passava como a carícia dum leque de plumas. De roda, pelo caprichoso e largo desdobramento da cidade, as avenidas e os cais da beira-mar, iluminados profusamente, eram um colar faíscante de pedraria e oiro, riscavam rútilas e esplendorosas curvas. E não tinha fim, não tinha limite esta invasão delirante da claridade. As suas imensas linhas de fogo sinuosavam, penetravam-se, contrapunham-se, prolongavam-se, cortavam-se, profusas, ondeantes, e por fim seguiam sôltamente ao largo, pontilhando a vaga opacidade da tréva, densas, vivas e espertas sempre, embora grado a grado amortecidas e apequenando, na distância. Se o vapor se aproximava da terra, junto com os jorros da luz branca, que davam uma nítida visão fragmentária das coisas, vinha então o grosso éco da foliona febre da multidão, em lufadas alucinantes.—Mrs. Edith e o Silveira seguiam muito amigos e unidos, sentados sempre a par,—e isolados no seu mútuo embevecimento, alheios ao tempo e ao logar, a favor da parcimoniosa luz postos a seguro de vistas importunas,—gozavam juntos, mudamente, a infinita delícia daquela hora incomparável, admiravam enleados, pela borda sinuosa dos cais, aquela parada inflamada e ardente, essa corda, êsse rosário interminável de sóis, mais rubros, mais claros e mais firmes que os sóis do alto... esplendente barra de oiro cravada no dôrso glauco do mar por alfinetes de prata, aguada mágica de luz esparsa, no insondável mistério da noite subindo e indefinidamente alastrando, diluindo-se, esbatendo-se, perdendo-se, a dançar anamórfica pelo espaço.
A certa altura da noite começaram as libações. O estalar das primeiras rôlhas de cerveja e de champagne foi o apetecido sinal para o fácil repúdio das fórmulas coercivas da etiqueta. Gradualmente agora iam sendo postas de banda as peias, as convenções banais da cortesia, para deixarem um pouco de campo ao exercício livre do instinto. Muitas das senhoras então soltavam os voiles ou deslaçavam as blusas, afogueadas; os homens arremangavam-se. Num progressivo calor, e numa contagiosa e audaz alacridade, dentro de cada grupo os movimentos, os gestos abastardavam-se, e subia o diapasão delirante das saùdações e dos hurrahs. Veio mais tarde o momento em que, por uma adaptação condizente ao epicúreo abandôno desta hora libertina, alguns deixavam-se resvalar das suas cadeiras e tamboretes para as tábuas rasas do convés, onde se quedavam molemente estirados, numa beatitude inerte, a cabeça pesada oscilando, o dorso contra a amurada. O Conde Améglio, esquecido da mulher e dando ao démo os seus brios postiços, divagava de grupo para grupo, abundante e palreiro, feliz, o olhar empanado e a taça vazia na ponta dos braços froixos, cambaleando. Havia uma única nota de excepção, um absurdo protesto passional, em todo este côro vibrante de alegria; era a longa figura trági-cómica da desgrenhada Nora, hirta e de pé, amparada ao mastro de pôpa, mirando com decisão o mar, num pendor teatral ao suicídio... Ao passo que não muito longe, o Silveira e a irlandesa, cada vez mais cingidos, trocavam, amorosos, as taças, afim de penetrarem-se mútuamente os segredos, e êle, não podendo, em linguagem compreensível para a sua amada, expressar tôda a veemência do fogo que lhe abrasava a alma, substituia com vantagem o calor sugestivo da frase pela eloqùência muda dos contactos.
Na manhã seguinte, sim, deu-se pressa o Silveira em demandar a terra. E ao avançar, curioso, os primeiros passos pelo liso empedrado do cais Pharoux, sentia-se bem, o coração dilatava-se-lhe, estimulado e contente ao reconhecer-se num ambiente amigo. Tudo ali, com efeito, lhe avivava impressões flagrantes, lhe evocava de Portugal a lembrança próxima e querida, tudo,—desde a analogia cantante da linguagem aos traços e ademanes conhecidos das figuras, desde o tipo sóbrio e maciço das construções à brita miúda e ao desenho do mosaico dos passeios. Tomou um automóvel e mandou bater ao acaso, num giro de reconhecimento rápido às mais celebradas coisas da cidade. O chauffeur era português, tomou familiarmente assento ao lado dêle. A bôa disposição do ânimo fazia-o mais acessível, o simpatismo sugerente do meio tornára-o jovial, aquecia em frémitos de fraterna expansão a sua sensibilidade agradecida. Por isso, a cada momento, naquela vertiginosa abalada, o feliz viajante ia cortando os esclarecimentos fugazes do condutor por admirativas exclamações e brados entusiastas, quando não descia a indagações mais íntimas, inquirindo com afectuoso interêsse o chauffeur na sua filiação, antecedentes e condições morais e materiais de vida.—«Se viera para a América havia muito tempo? Se estava contente? se tinha valido a pena?»
—Alguma coisa se faz, meu amo...—contestou afável, num risinho esperto, o interpelado.
—E muita família lá em Portugal?
—Mulher e três filhos. Quanta mosca posso forrar, p'ra lá vai inteirinha.
—E saùdades da pátria, não tem?
—Que pátria, senhor?...—acudiu com amarga resignação o chauffeur, olhando de espaço o Silveira.—A gente, em vindo p'r'aqui assim, não temos mais pátria. Por cá chamam-nos galegos; se volvemos a Portugal, somos brasileiros.
E encolheu os hombros com tristeza. Assim mano a mano chalrando, indagando e informando, mutuando fugazes impressões, colhendo notas inéditas, percorreram os dois o amplo coleamento áureo-verde da avenida Beira-mar, visitaram Botafogo, fizeram o rodeio dêsse retalho paradisíaco que são as praias do Leme, Copacabana e Ipanema, internaram-se pelo delicioso dédalo de sombras, palacetes, parterres e jardins do bairro das Laranjeiras, deitaram ainda ao Jardim Botânico, e foram por fim almoçar ao morro de Santa Teresa. Larga e formosíssima jornada. O Silveira estava encantado, aturdia-o a cálida vitalidade do ambiente, sentia-se bêbedo de magnificência, de luz, de côr, de movimento e de ruído. Feria-lhe com agrado a atenção o escrupuloso aceio das ruas, a variegada tinta das construções, o abundante luxo decorativo das árvores e das flores, e, por uma estranha anomalía dêste scenário mole de prazer, o tom sempre atarefado, o côrso afadigado e ligeiro da multidão, palpitando, tumultuando, fervendo numerosa e incessante, como uma grossa onda de renovação a correr, generosa e fecunda, por essa densa rêde de artérias da abundância e da fortuna. Bem mais porêm que a obra magnífica do homem o impressionou o esplêndido vigor da Natureza,—as colossais dimensões e o atormentado aspecto dessa grande paìsagem eruptiva tôda em bruscas oposições e em arrancadas titânicas; prodigiosa armadura cujo torso arfante, rompida, aqui, ali, a sua espêssa crôsta verde, fôra atirado vertiginosamente a prumo, formando atrevidos minaretes naturais donde se abrangiam panoramas maravilhosos; estonteadora ronda de montanhas fechando zelosamente na concha dos seus flancos viridentes, como entre mãos de gigantes um brinquedo, o formigueiro policromo e frágil da casaria. Mas era demasiado grandioso e solene. Perante a melindrosa sensibilidade de europeu, do Silveira, tanta soma de majestade raiava já pela tristeza; sobrelevando à sua extática admiração por tam desconcertante e caprichosa exuberância, havia o que quere que fôsse de vagamente constritivo e grave, que o esmagava, que lhe pesava na alma, como um fatídico prenúncio de desgraça. Porque êle não encontrava aqui, nesta luz crua, nestes mamelões adustos, a vegetação suave e amiga, as delicadas e múltiplas nuanças, o brando afago, as acariciadoras sombras do torrão bemdito que lhe embalára a infância. Aqui, na sua fechada monotonia, a sombria capa verde do sólo áspero e convulso tinha um não sei quê de opressivo, de hostil, de trágico; na impenetrável noite do seu mato torcido e hirsuto pressentia-se tôda a sorte de quimeras ruins, de reptís, de feras, de monstros, espiando-nos. Era um Éden traiçoeiro... inadaptável seguramente à poesia dos contos de fadas, à simplicidade ingénua das bucólicas tangidas melancólicamente, na grave e dulcerosa paz dos campos, pelos contemplativos pastores da sua terra.
Horas depois, à noite, e quando outra vez a bordo, o temperamento vibrátil do Silveira ardia por expandir-se, debatia-se no vivo empenho de transmitir impressões aos companheiros. Os Améglio acolheram-no com frieza, fortemente ressentida como estava Mrs. Edith por não haver ido com êles. Ramón Alvarez, envernizado e rubro como um tomate, tambêm pouco o atendeu:—«não estava de acôrdo, ia morrendo assado... tinha achado uma estopada!»—Voltando-se para o Mackenna, êste não o deixava falar, porque, no seu fátuo egoísmo, tudo era por sua vez encarecer-lhe os surpreendentes motivos que esquissára para um soberbo quadro simbolista.—Havia de ver!—Valeu-lhe por fim a sua grande amiga espiritual, a loura e tímida Irene, que com amável complacência o escutou longamente.
No dia seguinte tocavam em Santos; e enquanto o Silveira se debruçava atento sôbre o aparatoso e sólido desdobramento e o tráfego colossal do pôrto,—bem comparável ao de Liverpool, lhe haviam dito, e via que com razão,—aí de acercar-se-lhe o pai Wimeyer, que, sempre no antegôsto falaz do seu tam almejado inquérito gramatical, todo o oportuno ensejo aproveitava para lisonjeá-lo. E com [familiaridade cativante], numa [erudição] muito a propósito:—que êle, como bom português, devia sentir-se orgulhoso e contente, ali... vendo, e pisando podia dizer-se, terra da celebrada baía, pitoresca e tranqùila, onde, quatro séculos antes, aproára a primeira expedição enviada de Portugal para colonizar o Brasil; e que era ali a outrora ilha de Enguáguassú, sabia bem... assim como foi dali que partiu breve para o interior, nesse tempo, trepando e transpondo épicamente a abrupta Serra do Mar, a expedição que havia de fundar a legendária Piratininga,—a encantadora S. Paulo de hoje.—Confundido por esta exótica demonstração de tanto saber, o Silveira aplaudia, num risinho envaidecido; e quanto à embaraçosa iniciação dessa prometida sabatina gramatical, o aterrado argùente ia engenhosamente iludindo—que já agora, por poucos dias, seria melhor, com outro descanço... em Buenos-Aires.
Bastantes passageiros mais desembarcaram aqui; gradas figuras da finança e da indústria, ricos fazendeiros do interior, caixeiros-viajantes, mulheres de prazer, artífices, obreiros, peões, representantes de empresas estrangeiras. Assim, aquele reduzido mundo que o berço reluzente do Almeria sôbre as águas baloiçava alegremente, ia em repetidas golfadas rareando; e ali dentro a vida fechára-se em pequenos círculos de discreta intimidade, cada vez mais singela, mais suave, mais familiar, à medida como o termo da viagem se acercava.
Amiudavam-se agora e edulcoravam-se, naturalmente, aqueles almos e fraternais colóquios de Irene com o Silveira,—o que não era para êste, aliás, empresa fácil, apetecido alvo como êle se sentia, a cada momento, do contrôle implacável de Mrs. Edith, ávida por igual da sua presença e ciosa do seu convívio. Ele porêm sabia, sempre que isso lhe convinha, desembaraçar-se dela, invocando déstramente os seus compromissos gramaticais para com o pai Wimeyer; depois, uma vez junto dêste, difícil lhe não era tambêm deixá-lo, na improvisada simulação de qualquer solícita démarche junto da filha; por fim, quando, de longe, a querençosa mirada de Mrs. Edith lhe significava a impossibilidade formal de manter-se mais tempo, sem escândalo, junto da linda argentina, êle aí expressava pezaroso, perante esta, o seu inadiável dever de cumprir para com os Améglio uma qualquer obrigação de cortesia, e partia imediatamente. E assim neste divertido círculo vicioso de inofensivas invenções ia salvando com arte as dificuldades e preenchendo saborosamente as horas. O certo era que a doce freqùentação espiritual de Irene fornecia ao Silveira uma derivante deliciosa cada vez mais dominadora e mais atraente, aos desafíos sensuais da irlandesa. Não raro passavam agora horas seguidas sós os dois, já caminhando mui camaradas, par a par, a fazer uma e muitas vezes o giro completo do convés, discorrendo com interêsse juvenil sôbre coisas de nada, ligeiros, felizes, a frase sôlta e leve no ar cortante; já imobilizando-se sôbre um ponto ao acaso da amurada e aí, sonhadores e mansos, balbuciando a sua mútua emoção em termos vagos, imprecisos, como a dança incoerente dessas fugazes libélulas do mar, os peixes-voadores, que êles viam em baixo mergulhando e saltando atoadamente na imensidade azul das ondas. E momentos havia em que o espírito subtil de Irene, ao calor desta casta intimidade, se alava em sublimados conceitos, desatava-se em coisas transcendentes, soltava palavras raras e profundas. Uma que outra vez sucedia o temperamento másculo do Silveira aquecer e inflamar em arroubados ímpetos a sua alma enamorada... Porêm então, invariavelmente, a cada discreto ensaio de galanteio, a alma timorata e nobre de Irene fechava-se como em março um botão de rosa; se êle permitia, com um pouco mais de vivacidade, ao coração pronunciar-se, ela acolhia-se a um mutismo impenetrável, não perdia o ensejo de levemente lhe fazer sentir quanto a trivialidade mesquinha do amor à hora era insofrível para a sua sensibilidade e ofensiva para o seu orgulho.—Queria ver nêle um amigo, nunca um adulador.—Contrito e humilde, o Silveira resignava-se... e a figura melindrosa e isenta de Irene aparecia-lhe então como um dêstes tipos de virtude sólida e doce que nos reconciliam com a existência e nos fazem tomar em respeito a vida.
Em breves dias, uma linda manhã veio em que, no balanceio perpétuo do mar, a translucidez movediça das águas agora engrossava,—embaciava-se, parecia coberta por uma bostelosa máscara de lama. Eram as infinitas aluviões terrunhosas do Plata, cuja foz incomensurável, avassaladora e ampla como um mar, a prôa arrogante do vapor atingia neste momento. Já por estibordo se descortinava a airosa silhueta do Cêrro de Montevideo.—Um outro nome bem português...—voltava a observar-lhe o pai Wimeyer com amável solicitude.—Corrupção de monte vi eu, não era assim?... Perpetuava a primasia na descoberta e acusava sintáxicamente uma linda transposição, como tantas havia na formosa língua de Camões. Tinham muito que conversar...—E batia-lhe no ombro afávelmente. Mas o Silveira mal o ouvia. Neste feliz momento, os seus brios patrióticos empolgavam-no, sobrelevando aos quiméricos terrores pela ameaça das doutas interrogações do pedagogo. O coração dilatava-se-lhe envaidecido, porque êle notava como durante a sua viagem, no decurso de todo êste largo roteiro abarcando dois hemisférios, desde a largada inicial das bôcas de luz e oiro, do Tejo, té à embocadura brumosa e intérmina do Plata, êle viera medindo, reconhecendo, verificando, palpando sempre, ininterrompido e eterno, o traço, a marca indelével dêsse temerário arranque das descobertas... viera seguindo as aladas fugas do sonhador espírito português, tivera a prova constante do seu génio marítimo afirmada e selada épicamente, cruzára o imperecível sulco aventureiro do seu caminho de glória.—Que outro povo podia vangloriar-se dum prodígio igual?...—Perante esta íntima evidência, sacudia a cabeça com arreganho e atirava uma depreciativa mirada de desdêm a essa humanidade inferior que o rodeava... a êle, senhor do Universo.
Passada a encantadora capital uruguaia, não restavam agora ao Almeria mais que oito escassas horas de viagem. Todos tinham pressa de chegar e afanosos seguravam o tempo, compondo, cerrando as malas, dando instruções aos stewards, buscando e preparando a continuìdade das relações ocasionalmente entaboladas.—Os Wimeyer ofereceram ao Silveira a sua casa de Buenos-Aires, calle Paraguay. O Mafiori a todos anunciava bem alto que ia hospedar-se no Plaza-Hotel. Mas os mais, pelo geral,—como o Mackenna e o Alvarez,—não sabiam; iam confiados ao acaso ou haviam-se entregado ao solícito critério dalgum amigo. Os mesmos Améglio não haviam tambêm escolhido domicílio. Assim, para poderem depois vir a saber uns dos outros, concertaram reùnir-se ou enviar o seu adresse ao Café da Paris, na noite seguinte. E ainda, da suja promiscuìdade da 3.ª classe, não deixou de vir humildemente o Matias, na companhia confortante de mais dois patrícios, a demandarem interesseiros o Silveira, confiados na sua espontânea promessa de protecção, para lhe pedirem numa lacrimosa lamúria que não os olvidasse, e desejando saber onde haviam de procurá-lo.
A cada momento, espontâneos, vivazes, por entre a atramochada barafunda das bagagens, formavam-se grupos e travavam-se furtivos diálogos, palpitando da inquieta indecisão daquele instante. Mas diálogos eram êstes que na sua impaciência mordente, no seu vôo fantasista, em vez de aproximarem os interlocutores, distanciavam-nos. Cada um íntimamente se perguntava—que sorte iria ser a sua?... Aquelas quentes e efusivas palavras ninguêm as apreciava maiormente, ninguêm lhes dava inteira atenção, porque elas mesmas logo em cada um dêsses insatisfeitos espíritos sugeriam e despertavam, para alêm do seu significado real, outros planos, idéas, desejos, ambições e projectos que os levavam para muito longe... Porque é assim neste vertiginoso e dissolvente aturdimento que nós vivemos hoje a vida. Ninguêm se instala nela com permanência,—nem nas casas que alugamos agora, já com o antecipado desígnio de as largar àmanhã, nem nas dedutivas evidências da nossa razão, nem na voz instintiva da nossa consciência, nas nossas paixões, apetites, ódios, amores, interêsses. Nada para nós é hoje santo, grande, estável, firme, definitivo. Mudamos com uma rapidez assustadora e uma lamentável inconsciência, de ocupação, de família, de ideal, de carácter. Nada há duradoiro. A febril obsessão de «edificar o futuro» furta-nos ao gôzo tranqùilo e salutar da hora presente. A glória duma invenção feliz, o lucrativo êxito dum negócio, o aplauso por uma obra benemérita,—que foram o produto de longo e persistente labor, as mais das vezes,—contudo, apenas conseguidos e já não nos satisfazem, não nos arrebatam, não nos empolgam; raro a compensadora embriaguez do seu triunfo nos senhoreia por completo a alma. Devora-nos o apetite inquietante, e sem repouso, de novos riscos, lances, emoções, aventuras novas. O torvelinho trágico da vida desliza e corre sôbre nós sem nos penetrar, como a água pelas penas dos cisnes. A nossa existência [atropelada] e incerta tem a allure constante duma carreira, é um film alucinativo e ardente, cuja precipitada mímica nem nos abonda à vontade, nem nos cumula o desejo. É uma hiperbólica e vertiginosa curva sem termo, cujos ramos ideais mergulham no Infinito. Assim, andamos incessantemente aos cotovelões à felicidade, sem saber vê-la, sem a apreciar, sem a sentir. Ao cabo, morremos sem haver vivido.
...Quando, seguramente, a base mais sólida, mais coerente e mais lógica para a plena posse do futuro, seria, à maneira antiga, organizarmos o presente com serenidade, tratarmos com esmerado carinho as fugitivas delícias de cada hora que passa, apreciarmos, em suma, e penetrarmo-nos bem do valor intrínseco de cada dia,—como se o mundo fôsse a acabar nessa mesma noite.