II
IN PULVIS…
Oh, que noite negra, que invernia brava!
Nem uma estrellinha pelo ceo reluz!
Chora o vento ao longe com a voz tão cava,
Como quando dizem que de dor chorava
Toda a santa noite em que expirou Jesus!…
Vem sanguinolentos gritos muribundos
Das soturnidades torvas do horisonte!…
Já nos ermos andam lobos vagabundos…
Já os rios cheios, com bramidos fundos,
N'um diluvio d'agoa vão de mar a monte!…
Em casal de serras arde o castanheiro,
Lampada de pobres a fazer serão;
De redor do grande, festival braseiro,
A velhinha, o velho, o lavrador trigueiro,
A mulher, os filhos, o bichano e o cão.
Queima-se o gigante, rude centenario,
Que jamais os astros hão-de ver florir…
E do seu cadaver o esplendor mortuario
Faz d'essa choupana quasi que um sacrario
Com uma alma d'oiro dentro d'ella a rir!…
Tem o velho ao colo o seu netinho doente;
—Morte negra, foge do telhado, ó, ó…—
E no lar as brasas simultaneamente
Dizem para o anjo:—tudo é oiro ardente…
Dizem para o velho:—tudo é cinza e pó!…
Quantas vezes, quantas! por manhãs radiantes
Em pequeno, alegre como um colibri,
Não trepara aos braços todos verdejantes
D'esse castanheiro, que n'alguns instantes
Ha-de ver em cinzas já desfeito ali!…
Quantas vezes, quantas! lhe bailara em torno!
Quantas noites, quantas! elle ali dormia
Pelo mez das ceifas, quando o luar é morno,
E das restolhadas, quentes como um forno,
Se evolavam cheiros d'arreçã bravia!…
Como não sentir um entranhado afecto,
Como não amal-o com veneração,
Se lhe dera a trave que sustenta o tecto,
Se lhe dera o berço onde repoisa o neto,
Se lhe dera a tulha onde arrecada o pão!