VI
*O PASTOR*
O PASTOR
Sinos a defuntos! ai, quem morreria!
Olha, foi o pobre do Ti Zé-Senhor!…
Velho tão velhinho nenhum outro havia…
P'ra cumprir cem anos lhe faltava um dia,
Ha noventa e quatro que era já pastor.
Zagalzinho alegre, desde tenra infancia
Já de surrãosito cheio a tiracol,
A escalar montanhas com ardor, com ancia,
Por pastagens bravas d'auroral fragancia,
Branqueadinho a neve e doiradinho a sol!…
A deserta, imensa, rustica paisagem,
Cordilheiras, campos, astros d'oiro, luar,
Tudo se invertera, por continua imagem,
Em heroica, em livre candidez selvagem
Na extasiada flor do seu ingenuo olhar.
Ordenhado o leite, cantarinho cheio,
Ala para a aldeia, por manhãs sonoras,
Mordiscando a codea do seu pão centeio,
Arrancando á frauta um pastoril gorgeio,
Rapinando ás sebes chupa-meis e amoras.
Fez-se moço e grande pelas serras brutas,
Onde as aguias pairam, onde o roble medra,
E onde os fragaredos barbaros, com grutas,
Se encastelam crespos, infernaes, em lutas,
Tal como tormentas de trovões de pedra!
Cada serrania alcantilada e brava,
Sob o azul d'Agosto, côr de fogo e pó,
Recozida a febre e atordoada em lava,
Lagrimeja apenas d'uma rocha cava
Pranto, que o bebera uma ovelhinha só!
E por essas fulvas, ingremes ladeiras
Pastoreava o gado, quasi morto já:
Só rochedos tristes, nus como caveiras,
E zambulhos, zimbros, tojos, cornalheiras,
Acres como pragas d'uma boca má!