Que trinados vivos, d'argentino encanto
Ai, missa do galo, lhe inspiravas tu,
N'essa frauta, quando de cajado e manto
Ia deitar loas ao menino santo
No altar-mór da egreja sorridente e nu!

Fôra lá creança, magica ventura!
Centenario quasi a derradeira vez…
E gorgeava a frauta com egual candura,
Pois a alma virgem, luminosa e pura,
Conservara-a sempre como Deos a fez.

N'ella penetrava, n'ella se embebia
Tudo que é inocencia, riso, amor, clarão:
Fremito de pomba, voz de cotovia,
Canticos dos montes ao nascer do dia,
Lagrimas dos astros pela escuridão!…

Longe dos Pecados de raivosas presas,
Belzebuths famintos d'olhos de metal,
Longe das horriveis tentações acezas
No torpor dos leitos, na embriaguez das mezas,
Pululantes larvas, vibriões do Mal,

O pastor ditoso envelheceu ridente
Por despenhadeiros, alcantis, calvarios,
E na fronte augusta de ermitão, de crente,
Lhe geavam anos luminosamente,
Como as pombas brancas sobre os campanarios!

Das ovelhas meigas,—intimas heranças!—
Recolhera toda a abnegação christã:
Oh, sejaes bemditas, ovelhinhas mansas,
Que com vosso leite sustentaes creanças,
E vestis os pobres com a vossa lã!

Aos noventa anos, festival, risonho,
Alamo gigante d'agoa viva ao pé;
Sim! inda na boca risos de medronho,
E nos olhos lentos, a tremer em sonho,
Dois miosotis virgens de candura e fé!

Com seu manto branco de burel grosseiro,
Cans de puro arminho, baculo na mão,
Alembrava um santo feito pegureiro,
Que eu desejaria sobre o altar cruzeiro
D'uma ogiva d'astros, em adoração!

Centenario quasi, recordava aspectos
De lendario tronco n'um feliz vergel,
Moribundo em meio de seus verdes netos,
Com a Providencia a agasalhal-o em fetos,
Com abelhas d'ouro inda a nutril-o a mel,

E que surdo á voz dos ledos passarinhos,
E que cego ao ether de esplendor ideal,
Com o ai extremo lança dois raminhos,
A chamar ainda por canções de ninhos
E a dizer aos astros um adeos final!