Pronto!

O DOIDO, na escuridão

Ai, a minh'alma anda perdida, anda perdida
Ou pela terra, ou pelo ar ou pelo mar…
Ai não sei dela… ai não sei dela… anda perdida,
E eu há mil anos correndo o mundo sem na encontrar!…
Pergunto às ondas, dizem-me as ondas:
—Pergunta ao luar…—
E a lua triste, branca e gelada,
Não me diz nada… não me diz nada…
Põe-se a chorar!
Pergunto aos lôbos, pergunto aos ninhos,
E nem as feras, nem os passarinhos
Me dizem onde habita, em que logar!…
Sangram-me os pés das fragas dos caminhos…
Não tenho alma, não tenho pátria, não tenho lar!…
Ai, quanta vez! ai, quanta vez!
Não passará talvez
A minh'alma por mim sem me falar!
Quem reconhece o cavaleiro antigo
Neste mendigo
Rôto e doido… quem há-de adivinhar?!…
Adivinhava ela… adivinhava!…
O cão no escuro, pela serra brava,
Não vai direito ao dono a farejar?
Adivinhava… É que está presa… é que está presa!
Ontem sonhei… (lembro-me agora!) que está presa
Naquela bruta fortaleza,
Numa cova sem luz, num buraco sem ar,
E que os carrascos esta noite, de surpresa,
A vão matar! a vão matar! a vão matar!…
…………………………………..
Por isso o mar anda a rezar!…
Por isso a lua desmaiada,
Sem dizer nada… sem dizer nada…
A olhar p'ra mim, branca de dor, fica a chorar!…

Ribombam trovões, fusilam relâmpagos. Os cães, espavoridos, ululam
sinistramente.

O REI, alucinado, clamando:

É demais! é demais!… Põe-me o caco do avesso!…
Um frenesim… Que fúria!… irrita-me… endoideço…
E anda às soltas êste ladrão dêste espantalho!…
Eu já o ensino, já o arranjo… um bom vergalho…
Marquês! marquês! marquês!

SCENA IV

*O rei, Opiparus e Ciganus*, acudindo

OPIPARUS:

Meu Senhor!…