O DOIDO:

Dormir!… dormir!… Oh, quem me dera
Dormir!… Oh, quem me dera esta cabeça vaga,
Esta cabeça tonta, arrimá-la a uma fraga,
E quedar-me p'ra sempre esquecido no chão!…
E os mortos dormem… e eu morri… então… então
Porque não durmo?!…

Vagueando os olhos esgazeados pelos retratos da dinastia de
Bragança, e como que recordando-se gradualmente, em sonho, dum
escuro passado, abolido e longínquo:

Olha os bandidos… os traidores!…
Bem nos conheço!… fôram êles… subtilmente

Rosnam os cães, enfurecidos.

Com drogas más e com venenos de serpente,
Sem eu saber, de noite e dia, a pouco a pouco,
Me levaram a alma e me tornaram louco…
Enlouqueceram-me, endoidaram-me os bandidos!…
A minha alma!… a minha alma!… Ouço gemidos…
São talvez dela… tem-na aqui encarcerada…
Onde estás, onde estás, alma desamparada?!…
Grita por mim!… onde é que estás?!… Ai, quero emfim
Ver-te comigo… Onde é que estás?!…

Os cães, truculentos, investem com êle. Resignado e com desprêzo:

Ah, cães danados… cães d'el-rei… mordei, mordei
Êste corpo sem alma!… Ah fôsse outrora… outrora!…
E ai dos cachorros e do dono!… Assim… agora…
Mordei, mordei, ladrai, despedaçai sem p'rigo
A minha carne e os meus andrajos de mendigo!…

CIGANUS:

Coitado! um noitibó maluco e mansarrão…