CIGANUS, meditando:
Bem complicado êste cronista!… Quem o fez
Teve artes de engendrar singular criatura,
Contraditória, ondeante, incerta, ambígua, obscura…
Há duas almas no mostrengo: a que arquitecta
Quimeras vãs e sonhos vãos, a do poeta
Lunático, imbecil, místico, iluminado,
Essa deixá-la andar, que me não dá cuidado!,
Mas a outra, a ambiciosa, a gulosa, a mesquinha,
A refalsada, (a verdadeira!) a igual à minha,
Essa mais devagar, Saltamontes… cautela!…
Ôlho nela… ôlho nela…
O rei é tudo, o rei fraco… êste cronista
Discursa bem… convem não o perder de vista…
Inútil. Afinal as duas almas ao cabo
Destroem-se uma à outra, é como Deus e o Diabo.
E emquanto que ambas a ferver, drogas contrárias,
Em mil combinações, imprevistas e várias,
Se desagregam, eu, tranqùilo e resoluto,
Como tenho uma só, imagino e executo.
Ah, o cronista ambíguo e magro e macilento
Não pasmarei de o ver ainda num convento…
Bem capaz de morrer, jejuando, ermitão…
A loucura subtil envolve-o…
Que trovão!
Que relâmpago!… Brada o vento… ulula o mar…
E êste doido esquisito e singular, a olhar…
A olhar… Que leve o demo a noite e a ventania…
O REI, seguindo o doido com os olhos:
Pois agora embirrou! não larga a dinastia…
O DOIDO, absorto:
Fantasmas de mortos
São enganos mortos…
Não lhes tenham mêdo… deixem-nos sonhar…
SCENA VIII
Entram Opiparus e Astrologus.
O REI, ao cronista-mór:
Conheces porventura
Êste doido?