Dir-se-ia
O confuso estridor, desordenado e vário
Dum exército louco, em tropel tumultuário…

O rei com os validos assoma-se ao balcão. Hordas inúmeras de esfarrapados, multidões de mendigos, turbas espectrais, homens e mulheres, vélhos e crianças, ululando, gritando, praguejando, baixam a montanha em direcção à praia, numa torrente caudalosa, numa levada contínua de sofrimento e de miséria. E o porão tenebroso do navio-fantasma engulindo, aos cardumes, vertiginosamente, aquela humanidade enlouquecida. E a enxurrada sinistra, avolumando, alastrando, cada vez mais tumultuária e bramidora. Dir-se-ia um povo de malditos, debandando a um cataclismo inexorável! Povo imenso, não tem fim, mas o navio não tem fundo. Cabe tudo lá dentro. Os cães, na varanda, rosnam, sombrios e provocantes.

O REI:

Que quer isto dizer?! que chinfrineira é esta?!…
Que balbúrdia!… que multidões sombrias!… temos festa!…
Oh, com mil raios! temos festa… Há banzé novo…
Que 'stardalhaço… Um mar de gente!… um mar de povo,
A correr, a crescer… Gritos, uivos, bramidos…
Era uma vez, marquês!… Pronto! estamos perdidos!…

CIGANUS, fleumático, acendendo um charuto:

Coisa vulgar, Senhor: emigrantes, miséria…

O REI:

Cuidei que era chinfrim de novo… Ora a pilhéria!
Cuidei que era chinfrim… E antes o fôsse! Ao cabo,
Zurzia-os duma vez a pontapés no rabo!
Punha-os de môlho! A garotada jacobina
Hei-de-lhe eu amolgar as trombas numa esquina!
Chegando-me ó nariz os vinagres, cautela!
Dá-me a fúria… e caramba! é d'alto lá com ela!
Em Évora uma vez, há coisa de dois anos,
Salta-me num caminho um bando de ciganos,
Era de noite, mais escuro do que um prego,
Atiro-me, arremeto às doidas como um cego,
E esbandulhei quarenta e quatro!… Um bom chinfrim!…

OPIPARUS:

A canhão Krup?