Vamiré, estremecendo, admira o enorme animal. Conserva por ele o respeito que os velhos transmitiram, sabe que é valente e pacifico e conhece a história melancólica da sua decadência.

—Lô! Lô!—

O mamute continua a andar; o perfil da sua larga cabeça torna-se mais nítido na penumbra, e Vamiré distingue-lhe a crina e a pelagem, a tromba escura que se baloiça sincronicamente, e os flancos enormes.

O animal roça o abrigo do caçador, afasta-se na direcção do rio, e Vamiré, deitando-se, julga que pode ter uma hora de sono, e fecha as pálpebras. As ideias chocam-se confusamente; afastam-se depois, e a respiração igual atesta o sono, o descanso.

Abrem-se então os olhos negros da sua companheira, que se põe à escuta, suspirando. Assalta-a uma ideia de libertação; se ela ousasse, enquanto ele dorme,[{68}] desmanchar o entrelaçamento dos ramos do abrigo e fugir para o Ocidente, para as regiões da sua tribo?

Mas Vamiré ouviria certamente o ruído, acordaria, e ela estremece, só à ideia do seu grito de cólera. Entretanto assoma-lhe aos lábios um sorriso, um desvanecimento feminil e não se supõe simplesmente uma vencida. Porque ela viu-o embaraçado e tímido, e fez recuar os apetites do bárbaro. Tudo isto ela compreende tão bem como as filhas do homem que hão de viver em longínquo futuro, e das quais ela possui a ciência confusa e, ao mesmo tempo, subtil.

Por isso os seus receios são mesclados de indulgência, sem todavia poder esquecer-se daqueles entre quem passou a infância; dos seres da sua raça, da sua família, dos moços que falam a sua língua.

Se ela ousasse... Mas, acima da cólera de Vamiré, apavora-a a floresta que a rodeia, abundante de meandros e carnívoros; e reconhece quanto é fraca, sem a clava e a zagaia do raptador.[{69}]

[IX
O idílio nascente]

Nos dias daquela fuga febril, em que o gigante loiro a arrancava ao sono; nas paragens nocturnas, e durante a comoção das caçadas, começara a formar-se o idílio na alma de Élem.