A mão de Vamiré, inconscientemente, acudiu ao ponto ameaçado, caindo sobre a asa da ave; esta ripostou com uma bicada no pulso.

O ferimento despertou no homem as faculdades defensivas: como num sonho, os seus punhos de atleta acharam o pescoço de abutre... As garras aduncas fincaram-se, por dois minutos, na pele do espeleu; depois, veio a asfixia e a morte, antes que os dedos de Vamiré largassem a presa.

As asas dos sobreviventes feriram o ar; os seus vultos ergueram-se até as cimas das árvores. Ali, hesitaram por um momento, e, saindo por uma larga abertura, desapareceram.

O grande nómada, depois daquele incidente, recaiu na sua letargia. Tinha a aparência de um cadáver, e os corvos delegaram dez, de entre si, para se esclarecer. Os outros celebraram conferência, em que as vozes entre-cortadas respondiam a sons roucos, fundindo-se depois estes e aquelas.

Os dez verificaram que a grande presa era perigosa;[{95}] mas, como os tentasse o cadáver do abutre, trataram de o explorar.

O homem conservava esse cadáver na sua mão crispada. Com minuciosa circunspecção, deram volta ao animal, e atacaram-lhe o colo nu: abriram brecha, as tesoiras aprofundaram-na e, dentro em pouco, nas mãos de Vamiré estava apenas a cabeça do abutre. Depois, num esforço comum, os corvos levaram a presa para alguma distância.

Os chacais acharam favorável o ensejo. Ganindo e uivando, foram-se chegando, com um ruído semelhante ao de um aguaceiro na folhagem.

Os dez corvos ergueram voo, com um croaa furioso. Mas, reunidos aos outros, caíram aos centos sobre o espinhaço dos carnívoros, que prontamente fugiram, perante a imprevista agressão.

O bando negro ficou senhor do campo de batalha, e começou a devorar o abutre.

A hiena deixara de fugir. As exigências do estômago impeliam-na para a audácia. Embora altiva ainda, a sua raça ia decaindo, perdendo sucessivamente a índole ofensiva. Já estávamos longe do monstro daquele género, de maquerodo, que, com os seus caninos de dupla lâmina, do tamanho de um côvado, agredia os proboscídeos. Talvez que a grande hiena, nesse tempo, arrastasse ainda para as cavernas herbívoros palpitantes; mas esta, hiena mosqueada, não obstante possuir caninos e molares, os mais sólidos na animalidade daquela época, e capazes de partir o fémur de um auroco, limitava-se a preferir a carne morta, ou atacava,[{96}] em suas galerias os pequenos fossadores, a toupeira, o arganaz.