Com a tromba erguida em semicírculo, as defesas tocando no solo, com o seu corpo gigantesco potentemente especado, o elefante esperou...

Eram dois poderosos animais. O urso mostrava os braços peludos, armados de garras colossais, os seus caninos, a sua musculosa maxila. Podia, de pé, agarrar e sufocar. A sua pele espessa, oscilante, não o embaraçava na luta contra as feras, como o leopardo e até o[{98}] leão; o peso ajudava-o, e os seus gestos vagarosos eram de uma exactidão terrível.

Mas a força do mamute era incomparável. Os seus pequenos olhos, ao invés dos do urso, viam perfeitamente; a sua admirável tromba excedia, na agilidade e nos músculos, o braço do antropóide; as suas defesas recurvadas, do comprimento de dez côvados, jogavam e perfuravam como os cornos do auroco. Todo o seu corpo, em cima das quatro colunas das pernas, e sob o pêlo arruivascado e a abundante e negra crina mediana, mostrava-se a destreza e a facilidade de se voltar. Na floresta, na planície, nos desfiladeiros, em toda a parte, era ele o vitorioso senhor herbívoro, relíquia dos colossos de tromba, do período terciário, o dinotério, o elefante meridional, o elefante antigo.

O hipopótamo, o rinoceronte e ele representavam, todos três, o escol da era tapiriana, a monstruosa fauna alimentada do glúten da planta, o triunfo das grandes corporaturas e dos grossos músculos, o triunfo da paz armada, a coiraça, as pontas, as defesas, a tromba, contra a sanha dos carnívoros, a agilidade de locomotores, os caninos e garras de aço.

Perante o plantígrado míope, o proboscídeo foi o primeiro em deixar a expectativa. Naquele crânio, banhado de ondas de sangue, a embriaguez do furor toca, muitas vezes, as raias da loucura. O mamute soltou um mugido formidável e arrojou-se. A árvore salvou o urso, podendo este subir por ela até grande altura. O outro, com a espádua, fez agitar o tronco da grande árvore, e o urso, para não ser atirado ao solo, teve de[{99}] socorrer-se das suas garras de três polegadas, cravadas na casca do choupo.

Mas o elefante insistiu, e, de repente, o urso caiu-lhe sobre o dorso. Os dentes do urso fixaram-se em a nuca do elefante, e as garras junto às orelhas. Mas o paquiderme sacudiu-se, como um animal que sai da água, e, com um formidável impulso da tromba, fez cair o inimigo, que rebolou na erva. Depois, apanhou-o com a tromba, colocou-o sobre as defesas, ergueu-o, e atirou-o para cima de um silvado; e como o gigantesco animal se dirigisse ainda para o inimigo, este levantou-se, fugindo com dificuldade.

Misericordioso, o herbívoro aceitava este desenlace, e já se ia afastando, quando o urso reapareceu, atirando-se, às cegas, contra a tromba, arranhando-a e mordendo-a cruelmente.

O mamute, com um mugido de dor, dobrou o jarrete e abanou a cabeça. Com este movimento, o plantígrado perdeu o equilíbrio e caiu entre as defesas. A tromba segurou-o ali; depois o marfim enorme entrou-lhe no ventre, e, depois ainda, as grossas colunas do paquiderme esmagaram-lhe a caixa toráxica, e o urso exalou o seu derradeiro grunhido.

Por alguns segundos, o mamute encarniçou-se furioso nos despojos da vitima; e, em seguida, arremessou o cadáver para longe da clareira. E a hiena e os chacais tiveram que comer.

Satisfeita a sua vingança, o proboscídeo voltou para junto do homem. Farejou-o novamente e, colocando-se a alguns côvados de distância, mugiu longamente. A fêmea[{100}] apareceu com a cria; e ficaram todos três em volta de Vamiré.