[XVIII
Os vermívoros]

Os comedores de vermes marchavam na direcção do grande-lago. Ainda que tristes em geral, à sua exploração não era estranha uma certa satisfação no inicio das paragens. Espalhavam-se então, e, como a colheita da manhã era individual, tinham exclamações a cada bom achado, e mostravam puerilmente o que colhiam, túbaras, caracóis, raízes doces de umbelíferas, frutos agridoces...

Sob os longos e negros topetes, com a sua cara proeminente, a disposição daqueles topetes sobre o rosto tornava-os mais parecidos a qualquer cão do que a um antropóide. Os seus braços curtos, o seu peito em quilha, o indeciso ganido do seu rir, completavam a semelhança.

Demais, entre as tribos braquicéfalas corria a lenda, de que tinha existido ou devia existir no extremo Oriente uma raça de homem-cão, aniquilada a pouco e pouco pelos verdadeiros homens, pelos filhos do animal,[{134}] das águas, únicos e legítimos possuidores da Estepe e da Floresta, do Rio e dos Grandes-Lagos.

E assim, ou folgando entre os vastos arvoredos, ou perseguindo-se através dos matagais, de ventre em forma de odre cheio, de dorso curvo, marchando muitas vezes a quatro patas, conservavam a instintiva orientação que guia os animais emigradores.

A linguagem, reduzida a alguns sons, exprimia o medo, a alegria, a fome, a sede. Quanto ao mais, serviam-se da mímica animal, e ainda da comunicação oculta, da transmissão simpática do terror ou da ira.

Os velhos, sem ferocidade, eram os guias. Dois deles comandavam uma vanguarda de batedores; outro, o mais velho, fechava a marcha. Quando atravessavam os fojos das grandes feras, os chefes, com um grito agudo, reuniam a coorte; e, então de clava pronta, não se pode imaginar que solidariedade corajosa os impelia a investir sem temor contra o urso ou o leopardo.

Depois do meio-dia, reuniam as provisões comuns, as que serviam para o repasto da noite, antes de adormecer. Cada um ali depunha a sua colheita individual, sem lhe tocar com os dentes.

Feita a divisão, junto de um regato ou de uma fonte, comiam e bebiam sobriamente, e todos adormeciam, fatigados do seu trabalho diário, com sonhos tão vagos, como os do leão ou do lobo, que rosnam dormindo.

Marchavam. A floresta húmida espalhava sobre eles a sua sombra. Graves e pueris, a sua atenção desviava-se constantemente, acendia-se o seu pobre riso e apagava-se, como os fogos que flutuam nos pântanos; e[{135}] a sua vida expandia-se em ligeiras comoções, em esboços de ideias, em artifícios de quem amamenta um aborto, em lineamentos de memória e previsão. Lavasse-lhes a chuva os crânios duros, açoitasse-lhes o vento as nucas com varas de frio, fizessem-lhes os espinhos sangrar os pés, perfurassem-lhes a epiderme milhares de parasitas, eles tudo aceitavam. Acumulava-se-lhes no cérebro uma herança inteira de resignação.