D'ahi por meia hora—é sabido!—estava a sementeira desvastada!
Uma bella manhã, em meado de março, quando abri a janella do meu quarto, ouvi pipilar em cima. Debrucei-me no peitoril, olhei para o beiral, e lá vi a andorinha, que tinha chegado na vespera, á bocca da noite, emquanto eu andava por fóra.
—Bem!—disse eu comigo—já sei que tenho d'ir fazer uma visita.
Ao cabo de meia hora, peguei no meu bordão, e puz-me a caminho pelo meio de uma bouça, que ia dar á estrada.
Eu ia visitar a sr.^a viscondessa, uma gentil viscondessa minha amiga, que chegava sempre quando chegavam as andorinhas e floresciam as amendoeiras.
Ao atravessar o pateo lageado, que precedia o velho sollar da fidalga, estavam ainda os criados, vestidos com blusas de riscadinho azul, atarefados na limpeza da carruagem e dos cavallos. As janellas da casa estavam todas abertas. Sentia-se que havia lá dentro uma creatura delicada, sequiosa dos perfumes balsamicos dos pinheiraes, do ar puro, da luz, como aquellas plantas aquaticas, as nympheas, que sobem do fundo escuro dos lagos á tôna d'agua para receber os raios quentes do sol do meio dia!
Apenas entrei no pateo, deparou-se-me a sr.^a viscondessa; e era mesmo uma pintura vel-a, como eu a vi então, com a cabeça lançada para traz, os braços muito erguidos, os seios afflantes, a aprumar-se, a subir, fincada no bico dos pés, para lançar o painço na gaiolla doirada d'um canario, que estava pendurada, em cima, entre os cortinados da janella!
Era lindo! lindo!
Quem primeiro apparecia a cumprimentar a fidalga era o sr. abbade. E, então, conhecia-se logo que havia novidade na terra, porque o viam sair da residencia todo aceiado, de chapéo alto, cabeção de renda, a sua antiga sobrecasaca muito comprida a bater-lhe no canno das botas, e apanhado na mão direita, d'um modo solemne, o enorme lenço de sêda da India com ramalhoças amarellas.
Feitos os cumprimentos do estylo, o sr. abbade sacava da algibeira a sua caixa de tartaruga, e offerecia-a respeitosamente á viscondessa, como signal da maxima etiqueta.