—Não contradigo, meu caro—respondeu ella, removendo com a pá o rescaldo esmorecido—a primavera é que está agora conspirando contra os poetas, que lhe attribuem doçuras que não tem! Se o kalendario me não desmentisse, estava em jurar que o janeiro d'este anno augmentou, pelo menos, mais sessenta dias!

—Mas não está tanto frio, que se não prescinda do fogão!

—Não está calor que o dispense.

—Pois não é das melhores coisas para a saude!

—Ora que ideia!—oppoz ella, a rir—Não me consta que o fogão tenha sido o assassino de ninguem, tirante nos velhos dramas, em que a heroina ludibriada pelo amante, procurava no acido carbonico a solução do problema.

Supponham como eu fiquei radiante de jubilo! Até que se me deparava ensejo de contar á sr.^a viscondessa uma historia que ella desconhecia!

—Pois, minha senhora,—principiei eu com desvanecida firmeza—Filippe III, de Hespanha, foi victima do calôr d'um fogão! E, se v. ex.^a me permitte, eu vou referir-lhe como o caso se passou.

Approximei a minha cadeira do brazeiro, expuz os meus pés ao calor do rescaldo, para contradizer com a postura o que affirmava com a palavra, e prosegui:

Estava el-rei, assistindo a um conselho de ministros. Como fazia muito frio, diante de Sua Magestade tinham collocado um brazero enorme. Passado pouco tempo, principiou el-rei a transpirar, a transpirar cada vez mais e as faces a tornarem-se-lhe? muito vermelhas. O conde de Pobar, que viu no rosto de Sua Magestade a afflicção que elle sentia, dirigiu-se ao duque d'Alba, gentil-homem, e disse-lhe baixo que mandasse retirar o brazero.

—É contra a etiqueta—respondeu serenamente o duque d'Alba.—Isso compete ao duque d'Uzeda.