—Quero antes passeiar com a minha neta, que me conta historias muito lindas.
E continuaram os dois, o velho pelo braço de Izaura, arrastando vagarosamente os pés nas lagens do passeio.
* * * * *
Depois do jantar, o velho arrastava-se até á poltrona, que tinha ao canto da janella; e, bem refastellado, com os pés estendidos, as mãos cruzadas sobre o ventre e a cabeça encostada no espaldar, dormia patriarchalmente a boa sonata da sésta.
De uma vez, era em julho, e, ás duas horas da tarde, fazia um calor insupportavel. Até parece que a natureza tambem dormia a sésta! Lá fóra, no quinteiro, as folhas das arvores pendiam desfallecidas. Ouvia-se o murmurio monotono da bica d'agua a cahir, como uma lagrima, sobre uma pia de pedra, debaixo d'uma latada. As portas das janellas estavam entre-abertas para deixar entrar na sala uma fita de sol, que se estendia aos pés do velhinho, como uma esteira de luz.
No outro canto da sala, a filha do capitão, sentada n'uma cadeirinha de pau, pospontava uma camisa de creança, mas tão pequenina, que parecia uma camisa de boneca! Ouviam-se até uns pequenos estalidos secos da agulha, atravessando a gomma do morim novo e em folha. O Abel!… Era um regalo vel-o sentado no chão, em camisa, com as pernas roliças á mostra, um ventre redondinho de abbade feliz, e os pésinhos côr de rosa!
Aos pés do avô, na restea do sol, tremia a sombra d'umas folhas do platano do jardim. A creança engatinhou para lá. Como uma pequenina féra, atirando-se de golpe sobre a presa, o Abel lançou-se rapidamente sobre a sombra tremula das folhas; mas—que ludibrio!—ficou triste, espantado, com os olhos muito abertos, a contemplar a palma da mão vasia!
Ao lado estavam os grandes pés do avô, mettidos nos dois grandes chinellos de tapete. Oh! eram duas colinas! E as pernas? As pernas pareciam dois enormes castellos roqueiros.
No espirito bellicoso da creança surgiu a ideia terrivel de os assaltar. Fincou as mãositas nos chinellos do avô, levantou-se valentemente nos pés, e upa! upa! arriba!
N'essa occasião o velho sonhava: