Quando chegavam a falar, concordavam sempre que era o barulho das rodas do moinho, que os não deixava ouvir. Isso sim! Era o peso dos annos que os tinha quasi surdos de todo. Pobres velhos!
O Euzebio tinha um filho, que era um rapagão de vinte e dois annos, como um castello! Ainda o dia vinha longe, já elle estava a trabalhar, que era um regalo a gente vel-o.
—Lida como um moiro!—diziam os conhecidos.
E se havia esfolhada, ou espadellada, quem lá não faltava era elle.
O pae, que, n'outros tempos, tinha sido um folião, dizia-lhe, á bôcca da noite:
—Simão, se tens de ir a algures, parte, que eu cá fico, para aviar os freguezes.
—Estava arranjado!—respondia o moço a rir.—Vocemecê já deu o que tinha a dar. Agora coma e beba, e deixe-me cá com a vida!
Primeiro que tudo estava a sua obrigação. O rapaz assim que não tinha mais freguezes a aviar, fechava a ucha do moinho, e partia então para a brincadeira.
E o velhote do pae, quando alguem lhe contava as diabruras do filho, parece que até a alma se lhe ria na menina dos olhos.
O Anselmo tinha uma filha. Chamava-se ella Margarida, e era formosa, d'aquella formusura campesinha, sem artificio, jovial e expansiva. Em dotes do coração—que é a principal belleza!—nem as mais virtuosas a excediam.