José Maximo conhecia de sobra a vida de Coimbra, e esperava por isso a troça; mas, pelo facto de ser já conhecido, julgava-se a coberto das maximas torturas de que o Palito metrico fallava:
........... tum cœtera turba
Rodeat miserum; truxque investida comecat.
Principio quatuor mandat aparare sopapos,
Et simul haud cessant miseri cuspire bigotes,
Donec sella chegat lumbo imponenda rebeldi.
Manuel Rodado combinára porem com outros segundanistas que José Maximo fosse o principal alvo da troça feita aos novatos. Queria iniciar a sua vingança, e, como era rico, remunerava bisarramente a adhesão dos condiscipulos aos seus planos. Era elle quem na borga pagava as despezas de comes e bebes, as merendas de manjar branco «no fresco pateo de Cellas», as ceias na estalagem do Paço do Conde ou na tasca do Alexandre Ramalhaes ao fundo da rua das Sollas; d’aqui o seu prestigio, porque em primasias de intelligencia não se assignalava Manuel Rodado. A academia, sempre alegre e epigrammatica, pozera-lhe uma alcunha feliz, que ao mesmo passo alludia á garridice e á pecunia do sujeito: era o Narciso doirado.
José Maximo passou á Porta Férrea por entre duas filas de segundanistas, entre os quaes estava o filho do brazileiro.
Não reagiu contra a tradição academica do canellão, no primeiro dia de aulas, apesar de perfeitamente ter distinguido, na hilaridade dos trocistas, as risadas alvares, muito sarcasticas, de Manuel Rodado, o qual, vendo a submissão de José Maximo, julgou que podia exceder-se sem perigo de resistencia.
Não obstante ter grande amor ás costellas, entendeu que José Maximo, a julgar pelo seu retraimento e submissão, não era homem que tivesse coragem de repetir em Coimbra, no seio da academia, a pimponice valentona do Campo de Santo Ovidio.