Interrogado, José Maximo respondeu que por sua parte nada sabia do que se tinha passado, mas que estavam alli muitos estudantes que poderiam informar, querendo, o sr. conservador. Nenhum se mexeu; todos encolheram os hombros sorrindo, menos Manuel Rodado. Jayme de Carvalho acabou por dizer ao verdeal que se fosse em paz, porque não havia motivo para qualquer procedimento.

A academia, onde o elemento aristocratico era sanhudamente absolutista, deixou-se impressionar de uma subita sympathia por José Maximo, a quem, desde essa hora, ficou conhecendo pela alcunha de Martim Moniz, em memoria da sua façanha da Porta Férrea: façanha que no enthusiasmo do primeiro momento fôra pelos estudantes igualada á do heroe da porta do Castello de Lisboa no tempo de Affonso Henriques.

Manuel Rodado sentiu-se corrido. Desappareceu. Mas nunca o seu rancor a José Maximo fôra maior do que quando, ao pensar nos acontecimentos d’aquelle dia, percebeu que tinha indirectamente concorrido para dar vantajosa evidencia ao novato, que pela segunda vez o desfeiteára.

E fôra effectivamente assim. Durante o resto do dia e á noite não se fallou em outra coisa nos varios cenáculos de conversação academica. José Maximo tornára-se conhecido de todos, e estimado de muitos. Era já, na linguagem escolastica, geralmente designado por «Martim Moniz». Alguns estudantes absolutistas, com a versatilidade propria da juventude, pareciam querer mudar de opinião, qualificando de insolente reacção o procedimento de José Maximo, que tinha esbofeteado a academia na pessoa de Manuel Rodado. Mas outros, mais persistentes na primeira impressão recebida, replicavam que José Maximo respeitára as praxes universitarias submettendo-se ao canellão, e que apenas tomára como offensa pessoal a provocação que partira de um seu antigo inimigo. Accrescentavam que não era no meio da collectividade academica que deviam liquidar-se as pendencias individuaes. Posta a questão n’estes termos, ninguem ouzava quebrar lanças em publica defesa de Manuel Rodado, suspeito de cobarde. A pusillanimidade é o sentimento que mais repugna ao espirito dos novos, sejam quaes fôr as suas tendencias politicas e sympathias pessoaes.

Alem d’isto, os apologistas de José Maximo punham em relevo a correcção da sua resposta ao verdeal, quando appellára para o testemunho da academia; e contrastavam esse nobre procedimento com o de Manuel Rodado, que nem sequer tivera a coragem apparente de sorrir disfarçando um mesquinho resentimento.

O incidente da Porta Férrea estabelecêra ligações de amisade entre Jayme de Carvalho e José Maximo. A intimidade cresceu de pressa, porque não é proprio de gente moça moderar as suas expansões.

E cada dia uma nova revelação vinha estreitar os laços de amisade que uniam aquelles dois academicos, attraidos um para o outro pela coincidencia das suas inclinações politicas e valorosas aventuras.

José Maximo contou a Jayme de Carvalho a historia do seu amor por D. Anna de Vasconcellos para explicar a causa remota do conflicto com Manuel Rodado. Dezenhou-lhe o perfil insinuante de frei Simão, o destemido liberal de Cezár. Jayme de Carvalho ouvia-o sorrindo, sem comtudo mostrar-se surprehendido.

—Esse frade, disse Jayme, tem um irmão que está agora preso em Aveiro por vingança de um silveirista de Chaves, que se tem valido da politica para o perseguir por motivos particulares. Não é verdade?