—Deixal-os! Eu não quero saber d’isso.

Effectivamente, os academicos absolutistas planearam commemorar solemnemente a quéda do constitucionalismo. O plano vingou, de accôrdo com os lentes.

Em fevereiro de 1824 um triduo de ruidosas festas foi como um novo cartel arremessado á face dos estudantes liberaes pelos absolutistas. A provocação chegou a ponto de convidarem o famoso dominico Rochinha, muito constitucional, e cathedratico de theologia, para recitar a oração congratulatoria. Queriam compromettel-o pela recusa. Mas o doutor Rocha acceitou, comquanto o machiavelismo do convite irritasse profundamente o animo dos liberaes. D’este propositado rastilho nasceu o incendio.

Emquanto na sala grande dos actos se celebrava o annunciado outeiro com tumultuosos incidentes, no páteo da Universidade, vistosamente illuminado, a festa era perturbada pela expansão do despeito liberal.

Ao passo que no outeiro os estudantes constitucionaes, como um que se chamava Antonio Feliciano de Castilho, recitavam composições poeticas, em que o amor da liberdade transparecia ouzadamente, promovendo tumulto entre as duas facções adversarias, no páteo da Universidade os retratos da familia real e os emblemas allusivos á Restauração eram derrubados por mão desconhecida.

Castilho tinha conquistado um logar saliente no seio da academia pela circumstancia de ser cego e poeta. Estudava pelos olhos dos irmãos, e avantajava-se aos irmãos no boleio dos versos e na delicadesa da inspiração, sendo que todos os Castilhos eram apaixonados cultores das bellas-lettras.

Antonio Feliciano descobrira a veia poetica de José Maximo, e instou-o para que concorresse com elle ao outeiro. Procurou demovel-o com a leitura do Sonho de Fénelon, que escrevera expressamente como protesto contra os intuitos absolutistas d’aquella commemoração litteraria. José Maximo resistiu, desculpando-se com a insufficiencia do seu éstro indigno de hombrear com o do joven Milton portuguez. Mas prometteu a Castilho ir ouvil-o, e foi.