Viviam muito solitarias as quatro meninas, orphãs de mãe, e privadas da tutella vigilante do pae, achacoso e triste.

Frei José tinha comprado a Quinta de D. Maria, a dois passos do Outeiro, e doára-a a todas as quatro irmãs para sua habitação. Mas no Outeiro ou em D. Maria a solidão era igual para ellas.

Quatro irmãos, ausentes: José e Simão cada um em seu mosteiro; Frederico no Porto, Joaquim Maria em Traz-os-Montes.

Frei Simão, cujo caracter energico e destemido animo nunca poderam deixar-se domar pelo habito de S. Bernardo, a si proprio quiz justificar a ideia de que a sua presença se tornava necessaria em Cezár, para companhia e amparo das irmãs.

Era até certo ponto um pretexto, por isso que as quatro meninas ainda tinham o irmão mais novo, Antonio, e a tia, irmã do pae, que podiam acompanhal-as.

Mas frei Simão, a quem a vida religiosa só repugnava pela disciplina monastica e pela sujeição claustral, lançou mão d’esse pretexto para insistir no pensamento de obter a secularisação.

A liberdade de acção e o regresso á terra natal, aos campos da sua infancia, sorriam-lhe como um sonho de felicidade.

Elle havia adquirido propriedades em Alcobaça, comprára ahi a quinta chamada do Mogo, mas o seu espirito nunca se apegára tanto ao torrão florente e uberrimo da Extremadura como aos campos de Cezár, menos pittorescos certamente, mas mais suggestivos para elle, porque desde creança os conhecia e amava.

Dispondo de um animo capaz de tentar empresas difficeis e de arrostar com obstaculos, frei Simão requereu em Roma a secularisação, allegando o pretexto que as circumstancias de familia lhe forneciam. Mas não confiou tanto na justiça da allegação, que não pensasse em reforçar o pedido com valiosas recommendações para o nuncio em Portugal, monsenhor Vicente Macchi, para o embaixador portuguez em Roma, conde do Funchal, e para o cardeal Pacca, prosecretario de estado na Santa Sé.

Succedia que o cardeal Bartholomeu Pacca tinha estado como nuncio em Lisboa, para onde viera em maio de 1795, sendo então arcebispo de Damietta. Vinha já de representar o Papa na côrte de Luiz XVI, d’onde se retirára quando o scisma rebentou. Demorou-se em Lisboa até 1800. No principio do anno seguinte, Pio VII chamou-o a Roma, deu-lhe o chapeu cardinalicio, e investiu-o nas funcções de prosecretario d’estado. Bartholomeu Pacca soffreu, ao lado do Pontifice, as prepotencias de Napoleão I. Esteve preso em França, porque o imperador via n’elle o instigador da bulla d’excommunhão com que havia sido fulminado. Em 1814 voltou com Pio VII a Roma, e reassumiu as funcções que antes desempenhava.