O seu correspondente do Fundão pedia desculpa de não ter respondido immediatamente por se haver esquecido da pergunta na azáfama dos negocios.
Dizia que a senhora, de quem lhe pediam noticias, se apaixonára a tal ponto pela desgraça do filho, que morrêra um mez depois do assassinato dos lentes, justamente no mesmo dia e á mesma hora em que o crime havia sido commettido. Era uma coincidencia notavel, que tinha impressionado muito os habitantes do Fundão, os quaes se lastimavam de que dois patricios houvessem tomado parte n’aquelle horrendo crime. Dos dois, um, o filho d’aquella senhora, havia fugido para Hespanha, segundo constava; o outro, Neves Carneiro, fugira, acompanhado pelo pai, tambem para Hespanha, e a justiça por pouco que o não tinha apanhado no Fundão.
José Maximo ficou profundamente impressionado com a morte da mãe, cuja responsabilidade a si proprio imputava, e com a extranha coincidencia, que a elle, mais do que a ninguem, por ser extremamente supersticioso, se affigurava acontecimento sobrenatural.
A sua tristesa augmentou. Leccionando o menino, alheiava-se a espaços, muito abstracto, perdendo o seguimento das idéas.
—Que estavamos nós dizendo? perguntava elle quando despertava das suas atormentadas abstracções.
Sentia um recondito desejo de fugir para mais longe de Portugal, de ir procurar a morte em terra onde não fosse facil encontrar quem lhe podesse avivar memorias do passado.
Mas prendia-o ainda á patria a agridoce curiosidade de saber noticias do Outeiro: queria averiguar se tambem ali seria despresado, ou esquecido.
Essas noticias chegaram tardiamente, posto que pouco minuciosas, em junho de 1829: Uma das meninas da casa, que namorava um dos estudantes homisiados, havia sido atacada de paralysia ao ter conhecimento do crime do Cartaxinho. Perdêra, com grande surpresa dos medicos, o uzo da voz. Frei Simão havia sido preso, e estava na cadeia da Villa da Feira, sem que se podesse aventar que destino viria a ter: talvez a forca.
Fulminado por este novo golpe, despenhado n’um inferno de remorsos, de angustias sobre angustias, dilacerados os ultimos laços que o prendiam a Portugal, resolveu abandonar a Hespanha, como se, affastando-se da fronteira portugueza, quizesse fugir ás chammas que esbrazeavam o inferno da sua tortura.
Ia perder o auxilio que tão compassivamente lhe prestava aquella familia hespanhola. Mas entendia que merecia esse castigo a si proprio imposto: devia morrer na desgraça quem só desgraças havia semeado em torno de si.