—Contou-me historias dos frades de Alcobaça.

—Bonitas historias deviam ser essas! contadas por um frade impio, que abandonou a casa de Deus para vir ser vadio e espião na sua terra!

—Espião! exclamou involuntariamente José Maximo.

—Espião, sim, que se não pode dar um passo sem ser presentido por elle. Mas que tome cuidado, que assim como Gomes Freire e os outros estão com a vida por um fio, bem lhe pode acontecer o mesmo, e não se perde grande cousa.

—Eu ignorava que o tio não queria que fallasse com frei Simão. Mas para o futuro cumprirei as suas ordens.

—Eu sei lá! Tu foste levado á pia do baptismo por um maçon (referia-se ao major reformado Fonseca Rangel), tens o mesmo nome, podes ter tambem as mesmas manhas do teu padrinho. Mas põe os olhos n’elle, que lá anda a monte por Hespanha, por ser jacobino e cuspir na sagrada face de Jesus Christo.

—Meu padrinho fazia isso? perguntou José Maximo com inadvertida incredulidade.

—Pois o que fazem todos os pedreiros-livres, toda a cáfila dos maçons?! Se o não sabes, não o queiras saber, porque mettes a tua alma no inferno. Juizinho, sr. José Maximo, e não me ande por esses campos de Cezár a ler livros que não sei d’onde lhe vieram, nem a cochichar com o frade do Outeiro, que fez pacto com Satanaz. Que livros são esses que tu lês?

—São os meus livros de Coimbra, tio.

—Pensei que fossem de França ou de Hespanha... Estás em ferias, não estás? Pois descansa, e diverte-te. Pega n’uma espingarda e atira aos passaros. Isso é que é divertimento proprio de um rapaz, quando não tem que fazer.