Frei Simão explicou o seu desejo de ir ao Outeiro vêr a pobre paralytica, e o receio de poder ser denunciado pelo vendilhão que encontrára no caminho.

—Espreitaremos a occasião de realisar o seu justo desejo, respondeu-lhe padre Antonio. Vossa Reverencia deve considerar-se aqui em inteira segurança. Eu sou ministro de uma religião de misericordia: adoro o Deus do Calvario, que morreu perdoando. O sr. abbade, quando voltar do Porto, comprehenderá e desculpará o meu procedimento. Tambem não estão cá os criados, porque, segundo o costume, acompanharam seu amo. Minha tia é uma alma honesta e leal, incapaz de fazer aquillo que eu não desejar que ella faça. De modo que não deve Vossa Reverencia receiar da sinceridade dos hospedeiros, mas apenas desculpar-lhes a insufficiencia da hospedagem. Comtudo, quem está habituado a duros trabalhos não tem tamanhas exigencias de bem estar como aquelles que nasceram e teem vivido felizes.

—O que eu não queria era incommodar o sr. padre Antonio, e muito menos compromettel-o no caso de uma denuncia.

—Comprometter-me?! Pois acaso compromette-se um sacerdote quando exerce uma das obras de misericordia: dar pousada aos peregrinos? De mais a mais, toda a gente aqui suppõe que Vossa Reverencia, depois da sua fuga da Villa da Feira, tinha ido esconder-se no Porto.

—A minha fuga deve ter causado grande indignação. Mas o instincto da liberdade é innato no homem. Obedeci a elle.

—Assim é. As paixões politicas são por via de regra intransigentes; não poupam os adversarios. Era pois natural que a noticia da evasão causasse surpresa e até colera. Estamos n’uma epocha calamitosa, de sentimentos fogosos e cegos. Mas felizmente Vossa Reverencia dispõe de um animo forte para arrostar com todos os perigos. Agradeça-o a Deus. Se a historia da evasão, que aqui se conta, é exacta, o sr. frei Simão operou prodigios de perseverança na adversidade.

O frade descreveu minuciosamente todos os episodios da fuga. Havia nas suas palavras um vivo colorido, que padre Antonio admirava, e que o impressionava muito.

—Meu Deus! o que tem passado! exclamou padre Antonio quando frei Simão concluiu a narrativa.

—O que eu tenho passado! repetiu com profunda tristesa o frade. E a minha pobre irmã paralytica, perdida talvez para sempre! A minha pobre Anninhas! Deus perdôe a quem lhe fez saber a ruim noticia, que a reduziu á vida de estatua.