—Era elle, sr.ª Gertrudes, dizia a interlocutora da tia de padre Antonio. Disse-me o Elias peixeiro que era elle, com umas barbas grandes, que até parecia um salteador. Arrenego eu o homem!
—Não mettas a tua alma no inferno, mulher! respondia Gertrudes Magna. Trata de vender o teu pão fresco, e não andes a dar noticias que podem causar desgraças, e que tu não sabes se são verdadeiras. O Elias peixeiro pode ter-se enganado, e de certo se enganou.
—Elle disse que se não era o frade do Outeiro, o diabo o jurasse.
—Credo! mulher! que logo pela manhã começas a fallar no cão tinhoso! Tu encarregas a tua alma! O que consta é que o sr. frei Simão está escondido no Porto. Lá era elle tão pouco atilado que viesse metter-se na bôca do lobo! Olha que eu quero a minha sêmea mais leveira. Não sabes que já não tenho dentes?! Melhor tu olhasses mais pela vida!
N’este momento o sino dava o signal de—Levantar a Deus.
—Vai-te embora, mulher, disse a velha Gertrudes Magna. Deixa-me rezar um Bemdito entre a hostia e o calix, já que não posso ir á missa para ter o almoço prompto a meu sobrinho.
Frei Simão continuou acompanhando mentalmente o cánon da missa.
—Hoc est enim corpus meum, pensára elle, e conservava-se recolhido como se tivesse nas mãos a particula sagrada.
Na cosinha, Gertrudes Magna concluia em voz audivel a oração correspondente ao levantar da hostia.