A celebridade tornava maior o perigo. Tinham soado ao longe as suas façanhas de liberal: principalmente, a resistencia aos milicianos em Cezár, e a aventurosa fuga da cadeia da Villa da Feira.
Quando o frade ali chegou, Frederico Pinto andava escondido, por isso que, na qualidade de commandante dos voluntarios de Villa Nova, havia adherido, como sabemos, ao mallogrado movimento de 16 de maio de 1828. O governo de D. Miguel, além de lhe ter mandado sequestrar a propriedade do Outeiral em Arouca, privou-o da reforma que lhe havia sido concedida. Não tendo emigrado para a Galliza, como tantos outros, Frederico, abandonando a casa em que ultimamente morava na rua da Cruz, a Cedofeita, escondera-se, sem comtudo sahir da cidade.
Foi um amigo commum dos dois irmãos quem tratou de acautelar a existencia do frade, fazendo-o esconder n’uma agua-furtada do Passeio das Virtudes, pequena mansarda onde morava uma cega protegida pela familia d’esse cavalheiro.
Da janella da trapeira, sobreposta ao segundo andar do prédio, podia ao menos frei Simão distrair os olhos por um dos mais formosos panoramas da cidade.
Avistava ambas as margens do Douro,—a direita, accidentada em pittorescos degraus na quinta das Virtudes, prolongando-se com as montanhas da Torre da Marca e da Arrabida até descer para a reintrancia do Ouro e tornejar pela estrada de Sobreiras á Foz; a esquerda, coroada de pinheiros no alto, povoada, sobre o caes, de grandes armazens ribeirinhos e do convento umbroso de Val-Piedade, recortada salientemente na curva que, junto á Furada, bója para o rio.
Ao fundo, o mar, a amplidão infinita da agua e do ceu esbatendo-se n’um azul longinquo de saphyra embaciada para alem da barra.
Do meio da salêta, que era o seu unico aposento, podia frei Simão abranger esse vasto panorama, tão bello como melancolico, sem comtudo se expôr a ser visto por quem andasse passeiando no paredão das Virtudes.
Entretinha-o muito o espectaculo que diariamente lhe offerecia o convento de Val-Piedade, por cuja calçada transitavam a toda a hora os frades mendicantes, que sahiam em peditorio, e recolhiam com grandes esmolas, muitas d’ellas em fructos e cereaes, pesadas cargas que os donatos, vestindo a sua roupeta de saragoça, transportavam após os frades, de quem eram criados.
Ao fim da tarde desciam rio abaixo as lanchas dos pescadores de Valbom e paravam em frente do convento, d’onde o padre porteiro as abençoava para que tivessem abundante pescaria. Quando as lanchas recolhiam do mar, tornavam a parar junto ao convento, acostando ao caes para dizimar o peixe que, em retribuição da benção recebida, era repartido com os frades.