—Nem Vossa Magestade pode imaginar! A minha familia está desgraçada. Malvados! Um só de meus irmãos, frei José, prégador geral da ordem de S. Bento, foi realista, mas esse, em vez de perseguir alguem, morreu de desgosto em Lisboa, o anno passado, quando soube que tinha entrado no Tejo a esquadra franceza, e que o barão de Roussin havia sido mandado a Portugal para calcar aos pés o direito das gentes e vexar uma nação, cujo governo, cobarde perante o extrangeiro, apenas sabia ser tyranno com os naturaes que politicamente o hostilisavam.

—Frei José, teu irmão, replicou o imperador, podia ser um realista, como tu dizes, mas era principalmente um portuguez, que zelava a honra da sua patria.

—É certo, meu senhor. Ao menos resgatou pela morte o erro das suas opiniões politicas, aliás inoffensivas.

—Quero ouvir-te com mais vagar. Volta cá ás sete horas da manhã.

—Ás sete horas?! perguntou frei Simão espantado de que um principe lhe marcasse uma hora tão matutina.

—Sim, amanhã ás sete horas. Adeus.

Durante o dia, D. Pedro tornou a lembrar-se do frade, com essa agudeza de memoria, que é peculiar aos Braganças. Apesar das graves preoccupações que lhe agitavam o espirito, o imperador pediu novas informações a respeito de frei Simão de Vasconcellos.

Contaram-lhe a historia, muito conhecida, da resistencia á escolta, da prisão e da fuga. Descreveram-lhe o energico perfil moral do frade já legendario pelo seu valor, e dedicação á causa da liberdade.

D. Pedro, que via enublado o futuro apesar da facilidade com que entrára no Porto, consolou-se até certo ponto com a certeza d’essa dedicação pessoal, que podia valer muito como exemplo.