—Obedecerei incondicionalmente, respondeu José Maximo.
O inesperado d’este lance excedia todas as previsões, todos os seus sonhos de conspirador. A surpresa como que o aturdira por instantes. Mas um dos mascarados, julgando erradamente que José Maximo esfriára perante o sacrificio que lhe era exigido, procurou dissipar-lhe suppostos escrupulos, dizendo:
—Os nossos adversarios auctorisaram pelo exemplo os meios de que lançamos mão. Pois não é verdade que, na mallograda tentativa do anno passado, um desembargador, ajudante do intendente geral de policia, não duvidou introduzir-se no carcere de um dos conspiradores, o architecto Sousa, para lhe arrancar revelações? Comtudo nós apenas procuramos o bem da patria; longe está do nosso animo o perseguir individuos e fazer victimas.
—Todos os meios são bons, quando os fins os justificam, respondeu resolutamente José Maximo.
—Muito bem! Vossa mercê terá que sahir de tempos a tempos da casa que o receber como serviçal, para com o maior disfarce ir relatar á pessoa, que móra no Campo de Santo Ovidio, tudo o que tiver visto e ouvido. Convem que adopte um nome supposto, e uma supposta naturalidade. Pode vossa mercê dizer-se nascido no Alemtejo. Quanto ao nome, poderá ser Manuel... Manuel...
—Do Nascimento, atalhou um dos outros mascarados. Ficará vossa mercê uzando o sobrenome e o appellido de uma famosa victima da inquisição, o illustre Filinto Elysio.
—Mas convém que nós assentemos no seu nome de guerra para, no caso de qualquer occorrencia desagradavel, sabermos que vossa mercê e Manuel do Nascimento, por exemplo, são uma e a mesma pessoa.
—Serei pois Manuel do Nascimento, respondeu José Maximo, e natural do Alemtejo. O resto é comigo, e supponho que vossas senhorias não terão motivo para arrepender-se.
—Assim o esperamos. Vossa mercê, segundo o nosso plano, terá que estacionar em varias casas, taes como a do governador das justiças, juiz de fôra do civel e presidente do senado, mas por agora importa que vá offerecer-se á do governador das armas, o tenente-general Filippe de Sousa Canavarro, que precisa de um serviçal, segundo noticia que temos. Como decerto lhe serão exigidas abonações, vossa mercê indicará João Pereira da Costa, seu antigo patrão, residente em Beja, negociante e proprietario, como pessoa competente para informar sobre seus costumes. O governador mandará decerto escrever para Beja, e de Beja lhe responderão satisfatoriamente. Isso é comnosco.
Pouco tempo durou a audiencia.