Trez dias depois, José Maximo da Fonseca estava ao serviço do tenente-general Canavarro, na qualidade de segundo criado.

Foi admittido sob condição, emquanto se esperavam as informações que o governador mandou pedir para Beja, e que o rapaz julgava lhe seriam honrosas.

Effectivamente, assim aconteceu. O Synhedrio tinha preparado bem as coisas. O informador bejense chegava a lastimar que um serviçal tão activo e obediente como Manoel do Nascimento tivesse tomado a resolução de ir para o Porto, talvez seduzido pela esperança de maiores interesses, pois que outro motivo não havia.

Todos, em casa do governador das armas, gostavam de José Maximo, incluindo o Teixeira, criado grave ou escudeiro, como então se dizia, especie de mordomo, que era difficil de contentar pelo que respeitava ás qualidades dos seus subordinados.

Teixeira era um homem de sessenta e cinco annos, que entrára ao serviço da familia Canavarro quando tinha apenas quinze. Consideravam-n’o mais um amigo da casa do que um criado. Alto, sêcco, de maneiras exemplarmente compostas, não deixava nunca a sua casaca preta muito escovada e a sua gravata branca muito clara.

Havia sido educado em casa de uma familia nobre de Traz-da-Sé, onde o pai fôra tambem escudeiro. Essa familia extinguira-se, e elle tivera de procurar collocação em outra parte. Entrou na casa dos Canavarros, e nunca mais de lá saiu.

Aprendera desde pequeno a respeitar Deus, o Rei, e os patrões. A consciencia da sua posição levava-o, porém, a jámais discutir qualquer assumpto, que fosse extranho ao cargo que desempenhava.

Mas tinha convicções intransigentes, embora não ouzasse nunca formulal-as em voz alta.

Detestava os maçons, porque tinham fama de ser inimigos da religião e do throno. Nas horas vagas, mettido no seu quarto, lia as publicações contrarias á maçonaria. Sobre a sua mesa de cabeceira estavam A nova sentinella contra maçons, a Atalaya contra os pedreiros-livres, a Historia certa da seita dos fran-massões (sic).

José Maximo percebeu rapidamente o feitio do Teixeira.