Teixeira começou a achar raras e estimaveis qualidades no «Manuel», a tal ponto que ia tendo com elle menos reservas do que com todos os outros criados, passados e presentes.
Um mez depois de estar ao serviço do general, José Maximo, tendo sahido pela primeira vez ao domingo, aproveitou a occasião para communicar a Frederico Pinto as suas observações.
Metteu-se n’uma mercearia da Ribeira, e escreveu-lhe uma longa carta, da qual a revelação mais importante dizia que a pessoa que repetidas vezes procurava o governador, e se fechava com elle longo tempo, era o sr. Mello, presidente do senado da camara.
Esta revelação, transmittida ao Synhedrio por intermedio do coronel Sepulveda, foi tida como de bom agoiro.
O presidente do senado passava por ser um homem a quem as ideias modernas não repugnavam.
Seis mezes depois, José Maximo fazia uma revelação ainda mais importante: tendo sahido o Teixeira para visitar o Lausperenne, pudera escutar á porta de um gabinete em que o governador das armas e o presidente do senado estavam conversando, e ouviu, distinctamente, dizer o general:
—Se isso vier, não tomarei a iniciativa, mas hei de respeitar a opinião da cidade. As ideias não se afogam impunemente em sangue. Quando se reprimem hoje pela violencia, resuscitam ámanhã mais exaltadas.
Isso, na opinião de José Maximo, era a revolução constitucional. Não podia mesmo ser outra coisa, a julgar pelo tom de confidencia em que ambos estavam conversando á porta fechada.
Quando José Maximo se via só, pensava, com intensa saudade, em Anna de Vasconcellos. Mas não podia abandonar o posto de honra que lhe fôra confiado, e resignava-se lisongeado pela ideia de que na casa de Cezár era conhecida, pelas suas cartas a frei Simão, a extranha aventura politica que elle, por amor da liberdade, estava correndo no Porto.