Foi já de noite que José Maximo sahiu do Outeiro para o Porto.
Nunca elle havia trilhado aquelle caminho em tão alegre disposição de espirito.
A causa da liberdade estava ganha. Com a excessiva credulidade que é propria da gente moça, imaginava José Maximo que a revolução liberal era um monumento inabalavel e duradouro como as pyramides do Egypto. Tão cego de enthusiasmo estava, que nem a lição do que se tinha passado em Hespanha lhe acudia á memoria; não se lembrava de que, depois da revolução de Cadiz, Fernando VII se repatriára em triumpho e fôra acclamado rei absoluto pelas tropas do general Elio, com applauso da nação. O que José Maximo apenas via ou queria vêr era a victoria da liberdade em procissão festiva pelas ruas do Porto, e a ventura que n’aquella cidade o esperava na hora em que Anna de Vasconcellos lá chegasse. O coração e o espirito estavam satisfeitos. Parecia a José Maximo que todos os ideiaes da sua vida tinham attingido uma realidade tão feliz como perduravel.
Ao entrar no atalho que cortava os milharaes de Ignacio da Fonseca, viu, de repente, trez homens sentados no rebôrdo do muro, que era feito de pedras soltas. Conversavam fumando. José Maximo não gostou do encontro, mas não se acobardou. Levantou a gola da niza, derrubou o chapeu sobre a testa, e seguiu.
Tinha já passado pelo grupo, quando um dos trez homens gritou:
—Ó sr. José Maximo!
Fez que não ouvia. Mas outra voz insistiu:
—Então não quer o sr. José Maximo jogar o entrudo comnosco?! Ora quem elle é! O sobrinho do patrão! Vá com Deus, sr. José Maximo, e boa viagem.
Nem uma nem duas. José Maximo, que distinguiu perfeitamente a voz de Manel Zarôlho, criado de seu tio, foi andando sem responder. Mas levou a certeza de ter sido reconhecido pelo grupo.