O mosteiro, talhado em grande, contrasta com a rusticidade ingenua da povoação, que lhe fica proxima.
É, na phrase de um estimavel cultor das lettras, uma como rútila joia engastada n’um áro de rocha viva, o granito das montanhas que circumscrevem o valle, e de basto arvoredo, em que a oliveira frondosa predomina.
Apenas as nuances da vegetação, desde a clara esmeralda do linho até ao verde cinzento do olivedo, suavisam, no valle, a impressão produzida pelo aspecto oppressivo das montanhas severas.
No topo da Mó alveja a capellinha da Senhora d’essa invocação, d’onde a vista abrange um horisonte amplissimo, recortado pelo contorno das serras distantes, que se esfumam ao longe n’um traço sinuoso de carvão azulado.
Passa, á distancia de duas a trez leguas apenas, caracterisando aquella região alpestre, o rio Paiva, confrangido entre negras penedias, espumando quando salta de fraga em fraga, represando charcos sombrios quando descansa um momento, e resoando, como um clamor subterraneo, surdo e rouco, na angustia do seu attribulado percurso até ao Douro.
Um trecho do Paiva, em Alvarenga, chega a ser medonho no perfil alcantilado, pardo e nú, das vertentes escabrosas, que se eriçam em blocos amontoados e revôltos, calcinados e bravios.
O Paiva recebe, em Paradinha, o curso do seu affluente Paivó, tambem ullulante e tôrvo, de margens desgrenhadas e duras.
Parece que, em toda essa região, a impressão da agua completa a da terra, e que um negro Cocyto foi intencionalmente conduzido por entre montanhas tartáricas, como uma integração adequada de um scenario sinistro.
Frei Simão, quando sahiu do páteo do mosteiro, e encarou o agro cariz d’aquellas asperas serras escalvadas, sentiu-se subitamente apprehensivo, abalado no seu animo forte e corajoso.
Uma vaga sensação de mal-estar, que pela primeira vez o assaltava, obrigou-o a sentar-se n’uma pedra e a deixar-se ficar meditando pensamentos fugidios e confusos, que molestamente se succediam e baralhavam.