Ignacio da Fonseca foi de proposito a Coimbra para colhêr informações, e veio a saber que o sobrinho abandonára as aulas do Collegio das Artes, ausentando-se sem dizer para onde.

Bastaram estas denuncias, aliás incompletas, para que Ignacio da Fonseca recolhesse indignado a Cezár, e participasse ao irmão que estava resolvido a renegar um sobrinho indigno da sua estima.

O pai de José Maximo afinou pela colera do irmão. A mãe chorou amargas lagrimas pela sorte do filho, cujo destino ignorava, mas não poude abrandar a indignação do marido e do cunhado.

Os criados de Ignacio da Fonseca espalharam em Cezár, para que chegasse ao conhecimento de frei Simão, que «tanto o tio como o pai do sr. José Maximo não queriam tornar a saber d’elle.»

Frei Simão mandou esta ruim nova a José Maximo, para o Porto, e dizia-lhe por essa occasião: «Parece que estou condemnado a não poder escrever a Vossa Mercê sem ter que lhe dar noticias desagradaveis. Não bastou communicar-lhe que os criados de seu tio o reconheceram quando Vossa Mercê veio a Cezár. Agora os mesmos criados espalham por aqui que seu pai conhece tão bem como seu tio o facto de Vossa Mercê haver abandonado Coimbra. Apenas me parece que a sua familia ignora o que Vossa Mercê tem passado depois que se retirou das aulas: se o soubessem, não teriam deixado de o dizer e commentar.

«Eu passo aos olhos do sr. Ignacio da Fonseca por ser o desencaminhador, o genio mau de Vossa Mercê, e o fallatorio que por aqui vai tem visivelmente por fim apontar-me á indignação das gentes como pervertor politico de moços incautos. Mas eu, que no caso sujeito estou bem com a minha consciencia—Deus o sabe e Vossa Mercê tambem—não me incommódo com as injustiças que contra mim partem de visinhos rancorosos.»

Esta carta de frei Simão entristeceu José Maximo: elle conhecia o animo rispido do pai, e calculava, por isso, quanto a mãe teria soffrido desde que no Fundão se soube que abandonára as aulas de Coimbra.

Sentiu remorsos de ter dado esse desgosto á santa creatura que o adorava, e que elle já nem sequer via ha tanto tempo, por isso que, como sabemos, costumava ir passar as ferias a Cezár.

Não lhe pesava a ideia de não poder esperar da familia quaesquer recursos pecuniarios. Incommodava-o pouco, isso. Estava habituado a soffrêr incommodos desde que tomára o disfarce de serviçal em casa do general Canavarro.

Depois da victoria constitucional do Porto, arrumaram-n’o na secretaria do senado com um crusado novo por dia. Trez moedas chegavam-lhe bem para viver. Mas aquella situação era por de mais obscura para satisfazer o seu animo; equivalia a um bêco sem sahida. Repugnava-lhe ter que passar a vida na passividade ingloria de humilde copista, elle, que tudo tinha arriscado para fazer vingar a conspiração liberal do Porto.