Esta resposta despertaria decerto alguma replica agreste, se a attenção de José Maximo não fosse subitamente attraída por um incidente inesperado, que augmentou a sua colera. A familia de Frederico Pinto entrára no carroção, e conjuntamente com ella o capitão de infanteria 18 e o estudante de Coimbra.
Subitamente, o coração de José Maximo pareceu querer saltar-lhe do peito n’uma furia leonina. Era o ciume que despertava;—o ciume, sentimento que José Maximo desconhecêra até então.
Ao mesmo tempo resurgiam no desalentado amanuense da secretaria municipal todos os seus fogosos instinctos de revolucionario, como se accordassem de um longo somno violentamente sacudidos por um braço de ferro.
Reapparecia n’elle o homem forte, prompto para a lucta, destemido até á audacia.
O carroção partira ao passo lento dos bois corpulentos e tardos, que o lavrador ia picando com o aguilhão como para regular-lhes a andadura no momento de arrancar.
O rosto de D. Anna de Vasconcellos denunciava-se constrangido, ao espreitar para o arraial, onde José Maximo ficára acompanhando com um olhar desvairado o rodar vagaroso do vehiculo.
Pensando n’esse inesperado adventicio, cuja apparição lhe fizera despertar uma subita tempestade na alma, José Maximo monologava apprehensivo:
—Se elle veio de Coimbra de proposito para assistir á romaria, e se deixa a romaria para ir para o Porto, é porque está namorado. E porque elle é rico, e porque segue a carreira das lettras, porque, n’uma palavra, representa «um bom partido», todo o mundo, a familia de Frederico Pinto principalmente, ha de aconselhar Anninhas a que me esqueça para poder ser esposa feliz nas Casas Novas do brazileiro de Mattosinhos, como co-herdeira dos seus mil crusados e dos seus palacetes.
E, meneiando a cabeça, sorria de desdem, de amargura, de raiva.
Era o ciume...