[49] N’um opusculo em que se descrevem as touradas com que o senado da camara de Lisboa celebrou a acclamação da rainha D. Maria I, encontra-se a origem da accepção tauromachica da palavra Neto. Diz o folheto. «Seguiu-se a entrar na praça o meirinho da cidade João Marcelino Alvares de Sá (a que o vulgo n’estas funcções chama Neto, pela tradição de um meirinho de appellido Neto, que assistiu a muitos d’estes festejos) etc.» É uma nota curiosa, e por isso a registamos.

[50] Todas estas noticias foram colhidas n’uma curiosa collecção de programmas, coordenados em volumes de miscellanea, que existem na bibliotheca da Academia Real das Sciencias de Lisboa.

IV
A Severa e o conde de Vimioso

Toda a gente falla ainda da Severa, porque o typo d’essa mulher perdida ficou como que personificando a época famosa do delirio n’uma sociedade de marialvas opulentos, que viviam para a guitarra, para as touradas, para as extravagancias alegres e ruidosas, em que a vida parecia arder como a resina no fogo.

De todas as mulheres da mesma estofa, que a tradição tornou celebres, a Joaquina dos Cordões, a Escarnichia, a Amalia Bexigosa, a Conceição Capellista, foi a Severa aquella cuja individualidade parece ter consubstanciado todas as lendas da bohemia fadista, da vida picaresca de Lisboa, das aventuras do redondel e do alcouce, que tiveram um periodo de fascinação capitosa.

Mas, se toda a gente falla ainda da Severa, é fóra de duvida que a geração de hoje em dia não tem sobre o assumpto senão uma vaga idea fugitiva, que apenas as cantigas do Fado alimentam ainda, e que tende a apagar-se como uma lenda que morre estrangulada pela corrente de novos costumes e novas proezas.

No lapso de cincoenta annos a figura da Severa, a muza plebea do Fado, a cuja vida destragada associára a homenagem de fidalgos e populares, a cuja guitarra dolente o conde de Vimioso reconhecia o prestigio de um alaude divino, tem-se diluido como todas as tradições que enchiam de saudade o coração dos velhos que ainda chegamos a conhecer, hoje, na sua maioria, adormecidos para sempre na paz do tumulo.

Através do confuso nevoeiro da versão oral, o sr. Julio Dantas desenhou os perfis, empallidecidos pela acção do tempo, da Severa e do conde de Vimioso n’um drama, representado e publicado, e n’um romance tambem publicado; mas o sr. Miguel Queriol, contemporaneo d’essas duas famosas individualidades, acudiu logo, n’um interessantissimo artigo que O Popular[51] estampou, a reavivar a physionomia exacta do conde e da Severa, e a esclarecer alguns pontos escuros da biographia de ambos.

Para nos guiarmos na reconstituição d’essas duas figuras tradicionaes, devemos dar preferencia ás indicações das trez testemunhas coetaneas que teem escripto sobre o assumpto: Luiz Augusto Palmeirim, já fallecido; Miguel Queriol e Raymundo Antonio de Bulhão Pato, ainda vivos, felizmente.

Muitas pessoas suppunham, e eu com ellas, que a Severa pertencia, pela sua origem, a essas hordas de ciganos errantes que, na passagem por Lisboa, faziam outr’ora quartel general no Paço da Rainha, e que atravessavam em grupos a rua da Inveja, de S. Lazaro e o Campo de Sant’Anna.