Fallemos agora, um pouco mais detidamente, d’aquelle dos Vimiosos cujo nome foi pela lenda associado ás tradições orgiacas do Fado.
A casa Vimioso não é, na historia de Portugal, uma familia incolor, nem incaracteristica como a de muitos outros fidalgos que se contentaram em dar frades e freiras aos conventos, esmolas aos santos e almas ao ceu.
Bastaria, para que se não afogasse jamais a memoria d’esta casa, o facto honroso de ter ella offerecido o lençol em que foi caridosamente amortalhado Luiz de Camões.
Os Vimiosos tambem são distinctos por outros mais predicados, que impõem respeitabilidade. Uns cultivaram as lettras, outros a musica, alguns evidenciaram-se na politica e nas armas.
O primeiro titulo de conde de Vimioso concedeu-o el-rei D. Manuel a Dom Francisco de Portugal, filho natural do bispo de Evora, Dom Affonso de Portugal, e neto do primeiro marquez de Valença, primogenito do primeiro duque de Bragança.
Por aqui se vê o grau de parentesco existente entre Vimiosos e Braganças.
Dom Francisco de Portugal militou em Africa, servindo o rei em Arzilla e Azamor; favoreceu muitos estabelecimentos pios; exerceu o cargo de védor da fazenda; foi varão tão discreto, que lhe deram o cognome de Catão portuguez, e como cultor das muzas collaborou no Cancioneiro de Garcia de Rezende.
Succedeu-lhe no titulo seu filho Dom Affonso de Portugal, que na mocidade aventurosamente acompanhou o infante D. Luiz na expedição de Tunes, e na velhice seguiu el-rei Dom Sebastião na desgraçada empresa de Alcacerquibir, levando comsigo trez filhos. Lá morreu captivo, depois de ter visto na batalha cair morto um dos filhos aos pés de el-rei.
O seu primogenito, Dom Francisco de Portugal, foi o terceiro conde de Vimioso. Esteve com o pai em Africa, onde se apaixonou por elle uma irmã do xerife de Fez.[60] Resgatou-se, e seguiu devotadamente a causa do Prior do Crato, ficando ferido na batalha de Alcantara. Depois andou por Hespanha e França a manobrar politicamente em favor do seu querido Dom Antonio; por elle se tornou a bater no mar dos Açores; e, finalmente, morreu em consequencia de peçonha que lhe deram para não cair nas garras de Filippe II.
Foi poeta, muito dado a damarias, e excellente cavalleiro e toureiro, o que explica, por atavismo, que estas duas prendas resurgissem, seculos depois, no 13.º conde.