Descreve-o, finalmente, cantando o Fado:
«A guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle com um desfastio impávido, deixando pender o cigarro do canto do beiço pegajoso, gretado e descahido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplação imbecil; o tronco do corpo cahido mollemente para cima do quadril; a perna encurvada com o bico do pé para fóra; o cachucho da amante reluzindo na mão pallida e suja. Tambem canta algumas vezes, apoiando a mão na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabeça alta, esticando as cordoveias do pescoço e entoando a melopéa dos fados, em que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devoções religiosas á Virgem Maria, com uma voz soluçada, quebrada na larynge, acompanhada da expressão physionomica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e miseravel.»
Uma exuberante tatuagem é um dos caracteristicos do corpo do fadista; ás vezes, não só exuberante, mas tambem muito complicada de figurações caprichosas, algumas das quaes, como o signosamão, cuja interpretação ethnographica está por fazer, livram, segundo a superstição tradicional, de maus olhados e de espiritos ruins.
Na vida do fado este facto é commum tanto ao homem como á mulher.
O rufião tatúa a amante, pacientemente, como se estivesse produzindo, com ternura e enthusiasmo, uma obra de arte; ou se tatúa a si mesmo ou se deixa tatuar pelos seus pares.
Luiz Augusto Palmeirim tambem descreveu o fadista.
Nota que não tem familia, é engeitado da Santa Casa, para assim ir ao encontro da predestinação, do mau fado, que vem do berço, e com que o fadista pretende desculpar toda a sua existencia de vicio e torpeza.
Mas ha muitos que teem familia, paes conhecidos, e que são levados á fadistagem por uma espontanea tendencia de baixos instinctos, pela companhia e convivencia de faias, pela desmoralisação do Limoeiro onde foram uma primeira vez expiar qualquer rapaziada leve; ou ainda pela suggestão nociva do bairro em que nasceram e moram.
A Bisnaga escolastica, «colhida do Campo da Cotovia pelo lavrador do Palito Metrico», conta as brigas e contendas travadas entre os rapazes do Bairro Alto e os de Alfama, a murro e calhau.
Estes dois bairros, antigas escolas de fadistagem, habilitavam, assim, praticamente, desde a infancia, os continuadores das suas tradicionaes escarapelas e zaragatas, ainda hoje não extinctas completamente.