Foi Coimbra que deu ao Fado a alta cotação litteraria, que elle tem hoje nas serenatas academicas.
Muitas d’essas quadras, que ahi ficam relembradas, são poemas encantadores, doloras suavissimas, verdadeiras obras d’arte em miniatura.
Não conheço na poesia popular dos outros paizes, e não a conheço mal,[104] perolas de mais subida concepção poetica do que a maior parte d’essas quadras que pareciam sair da bocca do Hylario como um bando de queixumes estonteados, que algum temporal de amor tivesse desaninhado da alma dos poetas.
De mais a mais o Fado, transplantado litterariamente para Coimbra, não soffreu uma deslocação violenta como quando entrou, producto exotico, nas salas de Lisboa, e passou da guitarra ao piano.
Em Coimbra elle tem conservado toda a sua amargura dolente, continua a ser, na voz dos estudantes, o hymno da desgraça, não da que se debate em abysmos de miseria social, mas em tormentos, certamente exagerados, de amor e de saudade.
Prevalece integral no Fado de Coimbra a mesma feição psychica de soffrimento e angustia com que nasceu o Fado de Lisboa.
Não tem a desnatural-o a garridice frivola das salas, a inconsciencia musical com que elle é martelado nos pianos alfacinhas sem uma parcella minima de senso esthetico e de vibração emotiva.
Em Lisboa alguns poetas «novos» teem seguido o exemplo dos de Coimbra, dando ás coplas do Fado uma expressão accentuadamente litteraria.
Guitarra commum