Julio Cesar Machado refere-se á epoca da aristocratisação do Fado lamentando-a como adaptação violenta e desnaturada.

«O fado é talvez filho bastardo do landum,[34] mas é mais bonito que elle: os filhos bastardos, não se sabe por que, são quasi sempre mais bonitos que os legitimos: este foi mais adiante, e logrou ser mais formoso que o pai. O vagabundo nocturno assenhoreou-se d’elle durante muito tempo; chegou a pensar que era preciso ter desenhos emblematicos na mão, gravados com tinta e polvora, caracoes sobre a orelha e uma morte ás costas para se poder entender bem a poesia d’essa musica, que significa a tristeza das desgraças, amores que hajam tido por capella o Aljube e o Limoeiro, o ciume da faca de ponta, o amargar ventura entre grades, as saudades da patria, o suspirar do degradado...

«Isso não impediu que em todo o tempo um ou outro fidalgo tenha querido dar-se a estudar os segredos d’aquella musica tão vaga, que pede a maior parte do seu encanto ao sentimento do tocador e á doçura plangente dos descantes: citam-se o marquez de F.[35], o conde de V.[36]; ultimamente, uns poucos de mancebos, grandemente amadores d’essa musica, e prendados com os dotes mais requeridos para tirarem d’ella effeitos admiraveis, reunem-se ás noites n’alguma quinta dos suburbios da cidade, e não seria facil dizer-se com que inspiração ardente, n’aquelle campo, á luz das estrellas, suspiram as vozes dos cantadores e as cordas maviosas das suas guitarras, poetica, melancolicamente, como raios da lua por entre uma chuva de lagrimas.


«Mas, desde que os fidalgos e os janotas gostam de ser fadistas, estão os fadistas a querer parecer janotas e fidalgos, e não se pode contar com elles; saiem-se já de casaca, em grande seriedade de virtuoses, a dar concertos no Casino e no Circo, e o mais que se alcança d’elles é contarem-nos a vida de Salomão e de David...

«Uma massada!»[37]

Effectivamente, no Casino do largo da Abegoaria, chegou a haver concertos publicos em que se ouvia o Fado, com grande aprazimento do auditorio fidalgo, cantado por algumas coristas dos theatros da capital.

O empresario d’estes concertos está ainda vivo e são: era Ernesto Desforges.

Quando elle tratou de arrendar o Casino, perguntou-lhe o velho Figueira:

—Para que é?