Pag. [10]
Ácerca da synonymia das palavras Fado e discurso, esqueceu-nos citar Max Muller, que diz: «Fatum, a fatalidade; significava primitivamente o que tinha sido dito; e antes que a fatalidade se tornasse uma potencia superior ao maior dos deuzes, esta palavra significava o que tinha sido dito por Jupiter, e que o proprio Jupiter não podia alterar.» La science du langage, traducção franceza.
N’estas poucas palavras fica bem assignalada não só a correlação existente entre aquelles dois vocabulos, como tambem o caracter fatalista, irremediavel, de Fatum, que nós bem propriamente traduzimos por Fado (discurso em verso, acompanhado de musica).
Pag. [18]
Encontramos mais uma prova da não existencia do Fado no seculo XVIII.
Vem no tomo XIV do Theatro de Manuel de Figueiredo:
«... a imperfeição d’alma, que eu padeço pela minha ignorancia, me não deixou nunca esquecer da graça, que achei nos tocadores de viola, e rebeca nos proprios lugares, que juntos ião á Penha, e ao Beato nos Domingos, e dias Santos de tarde (ainda no tempo das espadas) com a banda direita do capote lançada por cima do hombro esquerdo, ficando-lhes as mãos fóra delle, e o cotovelo direito: as gentes corrião atraz daquella repetida tonadilha da fofa, e do fandango, como o rancho das galinhas atraz da feliz, que tem a lagartixa no bico».
Estas palavras são de Francisco Coelho de Figueiredo, editor e commentador do Theatro do irmão.
Francisco C. de Figueiredo nasceu em 1738 e morreu em 1822.
O tomo a que nos referimos sahiu em 1815.